O ideal da mulher decorativa (ou: como se sentir feia e feliz ao mesmo tempo)

Ilustrações encontradas no sensacional: https://www.instagram.com/ambivalentlyyours/

No último mês, eu andei me sentindo feia. Meu cabelo estava desbotado e ressecado, minha pele não anda lá essas coisas, estou cansada das minhas roupas, mas ainda mais cansada de enfrentar as 538 lojas que preciso atravessar em busca de roupas plus size que sejam bonitas e não custem os olhos da cara. Em suma, estou sem paciência pra minha aparência. Acontece. Em contrapartida, estou produtiva, inspirada, focada em 325 projetos diferentes, com muitas ideias borbulhantes na cabeça, escrevendo poemas, lendo livros, pintando aquarelas. Em suma, intelectualmente falando, estou on fire. Mas, de alguma forma, enquanto me sinto metade frustrada, metade empolgada, me parece que a balança ainda pende pro lado da frustração. Me parece que a necessidade de me sentir bonita ainda continua ultrapassando todos os meus outros potenciais.

Nessas horas, eu me lembro da adolescente que eu fui um dia dizendo que daria tudo para ser bonita (leia-se: bonita-padrão). Eu não era o padrão, mas eu era inteligente, eu era talentosa, eu era sensível, tantas outras coisas que poderiam ter tido o mesmo (ou mais) valor que a beleza, mas não tiveram. Porque a sociedade me ensinou, afinal, que ser decorativa está incluído no pacote de ser mulher. É preciso ser decorativa. Ainda que você seja também capaz, também competente, também engraçada, também inteligente (ou ainda que não seja nenhuma dessas coisas), é preciso ser decorativa. É isso o que o mundo vem nos dizendo, enfim: agradar a visão alheia é a nossa principal função no mundo. Pensando nisso, acho bom que o feminismo tenha vindo com força bater nas teclas da necessidade de implodir os padrões. As gordas estão saindo dos armários, as axilas não depiladas, tudo que até então era frequentemente reformulado a fim de se adequar ao que os homens estipularam como o ideal feminino. Mas então por que a gente se pega, ainda, usando a palavra linda como uma muleta? Por que, ainda, a necessidade de ser linda, mesmo que fora dos padrões, mesmo que subvertendo os padrões, por que ainda precisamos ser lindas quando podemos ser tantas outras coisas?

Sendo uma mulher gorda e fora do padrão, é claro que eu entendo a importância de subverter o conceito de belo que nos foi passado pela mídia desde sempre. Se eu cresci desejando ser linda e tendo como linda a ideia de uma mulher magra, é de certa forma revolucionário me descobrir linda sem precisar me submeter à magreza que exigiram de mim. É de certa forma revolucionário me descobrir desejável e feliz e confiante sem precisar me sujeitar ao molde que me venderam como o único possível. E conseguir perceber, enfim, que não era o único molde, que existem infinitos moldes e a beleza é muito mais ampla do que nos disseram que seria.

Mesmo assim, o conceito de belo — ainda que subvertido e renovado, ampliado para os tantos corpos possíveis, os tantos rostos e cabelos e cores possíveis — é um conceito que remete também à função decorativa atribuída à mulher. Quantas vezes vemos um homem sentindo essa necessidade de autoafirmação pela beleza? Quantos atores que passaram dos 40 deixaram de receber papeis como inúmeras atrizes depois dos 40 deixaram, simplesmente porque — conforme ficam mais velhas — vão também se afastando do padrão de beleza estipulado? A palavra feiura sempre vai ter um peso diferente para homens e mulheres. Inclusive, se eu comentasse com amigas o que comentei no início desse texto, sobre estar me sentindo feia e produtiva, é possível que elas automaticamente respondessem que: não, imagina, amiga, que isso, claro que não, você é linda, maravilhosa, arrasadora, pelo amor de deus, feia jamais. Elas entendem, enfim, o que é se sentir feia em um mundo que nos diz constantemente que é preciso ser bonita. De preferência, bonita padrão, mas, se não for possível, tudo bem, vale subverter o conceito de beleza, contanto que a beleza esteja aí (se alimentar o capitalismo junto, então, melhor ainda). Vale dizer, aliás, que o próprio conceito de empoderamento — já mastigado e cuspido de volta pelo sistema — tem sido usado quase que exclusivamente para se falar de beleza. Pior: tem sido usado até mesmo para vender os próprios produtos que nos são enfiados pela goela abaixo desde sempre (e agora ressurgem, disfarçados ao lado da palavra da moda, alavancando vendas e mantendo as mulheres, ainda, como sempre, presas a eles e ao que representam).

Não vou entrar no quesito subjetividade do conceito de beleza, porque esse texto não terminaria nunca mais. Mas é curioso, sim, que, mesmo enquanto feministas, a gente ainda discuta o padrão de beleza reproduzindo uma exigência que jogaram nas nossas costas séculos atrás e nós continuamos carregando. Nesses últimos dias, cheguei a me perguntar: mas e daí se, nesse momento, eu estiver meio feia mesmo? O que isso muda efetivamente? Eu vou morrer se me sentir feia? E todo o resto, não conta? Para onde vai a alegria de estar com os meus projetos em alta, a empolgação de estar produzindo, vivendo, realizando? Parece que não vale. Parece que, sem o selo a nos garantir que estamos cumprindo o nosso papel de Mulheres Decorativas, a sensação final é de fracasso.

Sempre que falo nesse assunto, acabo lembrando também de um vídeo magnífico da Katie Makkai. Por que ser apenas linda se nós podemos ser lindamente competentes, lindamente incríveis, lindamente capazes? Talvez o caminho seja, enfim, não subverter a beleza apenas em relação aos padrões, mas também no próprio sentido de beleza. Mais do que achar linda uma pele perfeita e um cabelo hidratado, que a gente consiga enxergar essa lindeza também na mulher que levanta e vai à luta todo dia, que tenta, que ri, que ama, que cai e levanta outra vez, que dança, que segue, enfim, na mulher que vive — com o rosto que for, com o corpo que for. Afinal de contas, existe coisa mais linda que um corpo e um rosto vivos e cheios de potencial?

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Esse texto estava na gaveta há umas 2 semanas e saiu hoje, graças a um ótimo texto da Clara Mello que me lembrou quão importante é a gente falar sobre isso.