Sob o coração dos mulherões da porra

Sexta-feira à noite. Maiara e Maraisa no repeat. Descabelada, eu canto junto, 100% sofredora. O coração não guenta. Fico pensando nessa recente aparição do feminejo e de como ando vendo, com frequência, mulheres que até mesmo nunca ouviram sertanejo antes se apaixonando por Marílias, Naiaras, Simones e Simarias. Inclusive, eu. Que catarse mais potente é colocar 10%¹ no volume mais alto e cantar junto, sofrendo tudo que se pode sofrer. Não vou entrar nos complexos motivos que popularizaram o feminejo, mas, particularmente, me agrada ouvir uma música que me permite sofrer um pouquinho em um mundo onde eu preciso estar, a todo momento, armada.

Recentemente, ouvi de uma amiga: “esse cara me ajudou muito, mas é claro que ele nunca vai saber disso”. Achei curioso. Em uma circunstância diferente, lembro de estar péssima e outra amiga dizer: “vamos tirar uma foto feliz e você posta no Facebook pra ele não achar que você tá mal”. É importante que ele não saiba, que eles não percebam. É importante, pra mulheres que se relacionam com homens, que eles não sintam mais poder nas mãos do que eles já têm normalmente. A avó de uma amiga tinha uma teoria sobre isso. Dizia que, em uma relação hétero, o homem precisava gostar sempre mais que a mulher. Eu ri quando ouvi, mas a verdade é que faz sentido. Os homens facilmente ocupam — em uma relação — a posição de dominância que estão acostumados a ocupar no mundo. Os homens estão acostumados, inclusive, a ocupar todos os espaços. Talvez seja preciso, mesmo, que a gente se arme um pouco, que a gente mantenha sempre uma postura ereta, uma voz firme, um contínuo não esmorecimento fundamental para que o nosso corpo não se deixe esmagar pelo corpo espaçoso dos homens, pra que a nossa voz não se permita engolir pela voz deles.

Mas a verdade é que isso cansa. Cansa estar sempre armada.

Enquanto ouço Maiara e Maraisa, penso no cara que me decepcionou recentemente. Não dei um ai. Não mandei um oi. Fotos e posts tranquilos, tudo muito normal na minha vida, tudo seguindo o rumo natural das coisas — com ou sem ele. Nada me afeta. Nada me encosta. Sou uma rocha. Sou a mulher forte pra caralho que fala sobre feminismo e amor próprio, a que não ouve absurdo de homem calada, a que não perde tempo com homem tendo outros tantos assuntos a se pensar. Sou uma performance. Uma performance convincente e necessária, mas uma performance. Enquanto ouço Maiara e Maraisa, o que eu sinto é uma grande tristeza porque ele não me deu parabéns no meu aniversário ou uma grande saudade de conversar com ele todos os dias. Eu sinto uma fragilidade. Essa fragilidade que a gente engole diariamente por não querer dar mais poder aos homens (justo), mas também porque alguém disse (e a gente acreditou) que a fragilidade era incompatível com a força.

O mesmo cara que me entristeceu dizia com frequência que gostava de mulher braba. Segundo ele, eu era um “mulherão da porra”. Porque eu sou braba. Nada me encosta. Porque a verdade é que eu já aprendi a andar armada, a andar ereta, a falar com voz firme, a não esmorecer. E onde tem espaço aí pra vulnerabilidade? É fácil para um mundo machista nos tirar da posição de fragilidade obrigatória e nos jogar diretamente para o lado oposto. Um mundo que nos agride diariamente é um mundo onde é preciso mesmo ser braba. É preciso falar alto e firme, é preciso se manter armada até os dentes. É preciso acreditar que não há espaço pra fragilidade, que entristecer por um homem é inaceitável, que se deixar afetar é uma fraqueza inadmissível, é indício de uma armadura que ainda não está suficientemente lacrada (e que deveria estar).

Mas que bom que não está. A minha armadura, pelo menos, ainda se mantém (felizmente) aberta e vez ou outra me coloca em situações como essa: triste por um homem. Mas o que não nos contaram é que a fragilidade não nega, de forma alguma, a nossa força. Não só porque se permitir a entrega e o risco ainda é uma enorme demonstração de coragem, mas porque o desafio reside, também, em não transformar a frustração amorosa em uma pedra intransponível no meio do caminho. Para mulheres que estão ouvindo desde sempre que o seu espaço maior (talvez único) de realização é o espaço da casa, do amor, da vida familiar, uma frustração amorosa pode realmente tomar proporções maiores do que tomaria para os homens. Aos homens, uma infinidade de opções. Às mulheres, o amor como única chance de legitimar a própria existência.

Ser um “mulherão da porra” talvez seja, então, negar o amor como forma única de legitimação; pelo contrário, lembrar que existe realização em muitos outros cantos da vida e a nossa existência está longe de ser pautada pela disponibilidade ou indisponibilidade de um homem qualquer — seja quem for o homem. Melhor que fingir uma foto feliz para que ele não perceba que você está mal, só mesmo acolher a tristeza, se permitir viver a tristeza, sem fazer dela nada além do que ela é: uma tristeza passageira por um cara passageiro que não diz nada sobre quem você é ou deixa de ser. Uma tristeza passageira por um cara passageiro que não te determina — a não ser que você permita. É só assim que a gente consegue, inclusive, sair de casa e fazer outras coisas e ver outras pessoas e se distrair e rir e se divertir e tirar fotos genuinamente felizes, porque — adivinha só — aquele cara era interessante, mas não era o mundo, não era o seu último riso, não era a sua última chance, não era nada além de um cara qualquer como outros tantos que já passaram pela sua vida e outros tantos que ainda vão passar.

Talvez tentar sufocar a própria fragilidade seja cair no mesmo abismo de quem se deixa vencer pela fragilidade. A força não é não se permitir ser afetado, mas ser afetado e, ainda assim, continuar andando, continuar seguindo, continuar se jogando no mundo e se permitindo novos afetos — apesar de. É por querer resguardar a fragilidade que me agrada tanto cantar descabeladamente uns feminejos sofredores, vez ou outra. Porque, pra andar de armadura, é preciso cultivar também os momentos de nudez. É preciso, inclusive, aceitar que (ainda bem!) a armadura não cobre tudo. Faz parte, enfim, lamber uma ou outra ferida de vez em quando, contanto que a gente saiba a hora de parar, fazer um curativo e seguir viagem, com umas cicatrizes aqui e ali, mas firme e forte. Afinal, ao contrário do que dizem a Maiara e a Maraisa, o coração aguenta, sim. É claro que aguenta. O coração das mulheres, pelo menos, eu tenho certeza que sim.

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¹ — Para os não entendidos, 10% é uma música da dupla Maiara e Maraisa: https://www.youtube.com/watch?v=JybMBMTHWP8