Sobre a amizade em tempos de vida adulta (ou: sobrevivendo às irreais expectativas criadas por Friends)

Nos últimos meses, eu entrei num processo de rever as minhas amizades. Não sei se existe alguma explicação astrológica para isso ou é só desequilíbrio emocional mesmo, mas o meu aniversário de 27 anos me trouxe uma grande crise. Crise de identidade. Crise de perspectiva. Crise de planejamento. Crise, crise, crise. E — como eu li em algum artigo de empreendedorismo ou algo do tipo— a crise é uma ótima oportunidade pra gente parar, rever, repensar. A crise não precisa ser um impulso meramente destrutivo, mas também um movimento em direção ao novo, ao que a gente ainda quer construir. E é isso o que tem sido. Um constante exercício de rever o meu passado e mudar as rotas que eu andei tomando.

Rever as minhas amizades acabou sendo uma consequência direta da minha necessidade de rever a minha vida. Afinal, quem são essas pessoas que estão ao meu redor? Eu escolhi elas ou elas simplesmente ficaram ali, porque as circunstâncias trouxeram e eu me acomodei àquela presença porque era o que tinha pra hoje? Elas realmente atendem às minhas expectativas do que significa ser amigo de alguém ou elas só contribuem pro meu sentimento de desconforto e isolamento no mundo? Elas me fazem bem ou eu gosto de acreditar nisso porque me agarro à ideia de que estar com elas ainda é melhor do que estar sozinha?

Já fazia algum tempo que eu estava com vontade de escrever sobre as expectativas irreais de amizade que séries como Friends e How I met your mother colocaram na nossa cabeça. Pra algumas pessoas, aquilo pode até ser a realidade, mas — pra grande maioria — acredito que não. A vida adulta não permite que você consiga reunir seus 5 amigos (todos com trabalhos diferentes, horários diferentes, planos de vida diferentes) em um café, simplesmente para bater papo, pelo número de horas que os personagens de Friends faziam. No mínimo, teria um trânsito pra impedir que um chegasse, o outro teria que ir ao mercado e fazer uma faxina na casa, talvez algum nem sequer fizesse do bate-papo no café uma prioridade, porque está focado na carreira, porque está focado em um relacionamento, porque está simplesmente cansado e quer ir pra casa. A vida adulta é uma rede incansável de demandas, e conciliar horários/desejos/prioridades não é tão fácil quanto costumava ser quando a gente estava na escola e não tinha nada pra fazer exceto estar com aquele grupo de amigos. Faz parte desse processo difícil e esquisito chamado: crescer.

Mas então o que efetivamente segura as amizades na vida adulta, quando você passa meses sem conseguir ver alguém simplesmente porque os horários não batem? Se dizer amigo de alguém na vida adulta é ter a certeza de que, num momento de real tragédia, aquela pessoa vai estar presente para você, seja para ir a um enterro com você ou para te oferecer abrigo caso o seu apartamento pegue fogo, mesmo que vocês dois se falem — no máximo — 3 vezes ao ano? Ou não: talvez se possa chamar de amigo também aquele que não tem tanta facilidade para te abordar nos momentos de maior fragilidade, mas está ali no dia a dia, compartilhando os pequenos momentos da sua vida, te mandando memes no whatsapp enquanto você está nervoso na sala de espera do dentista?

Não existe uma resposta certa pra isso. Já cansei de ouvir pessoas dizendo que podem passar anos sem falar com um amigo, mas continuam sentindo a mesma amizade — e, quando se encontram, a conexão funciona com a mesma força que antes. Para mim, isso não existe. Se eu passo mais de 1 ano sem falar com alguém, a amizade está — no mínimo — em coma. No meu mundo, amizade é construção constante. É compartilhar não só as notícias importantes da vida, mas as pequenas dores de cabeça do dia a dia. É disposição para estar lá e acompanhar as mudanças de alguém, enquanto você muda também, e vocês vão reajustando as compatibilidades conforme caminham. Se não existir essa contínua tentativa de reajuste, é muito fácil se perder de alguém. O fiozinho do diálogo vai se esticando até romper — e aí já era. Para construir outro, leva tempo.

Mas essa concepção é minha. Assim como é minha a concepção de que, se a gente se importa, a gente dá um jeito. A gente prioriza, a gente espreme as obrigações do cotidiano para caber um encontro — nem que seja rápido, nem que seja via skype — com aquele amigo que está precisando. Ao mesmo tempo em que não acredito em uma amizade estilo Friends, também acho que cultivar amigos é um eterno exercício de sair do próprio umbigo; de fazer as coisas não só por você, mas também pelo outro. Um tempo atrás, lembro, inclusive, que essa foi a primeira rachadura que encontrei na amizade com uma amiga. Se ela me chamava para ir a um barzinho e eu dizia que prefiro cinema, ela ia procurar outra pessoa para ir ao barzinho com ela. Porque ela queria o barzinho — quem ia junto parecia ser secundário. Enquanto eu, muitas vezes, trocava de programa por fazer da companhia a minha prioridade, ela priorizava o que ela queria — e se rolasse de estar acompanhada, ótimo. É a lógica do “você faz o seu, eu faço o meu; e, se a gente se encontrar, que bom”. Não faz muito sentido para mim. Se eu fizesse só o meu, eu não teria passado horas ouvindo uma amiga falar sobre o término do namoro dela enquanto eu deveria estar estudando para uma prova. Se as pessoas fizessem só o delas, seria difícil marcar de ir a uma festa longe sem ter certeza se vou ter companhia pra dividir o uber na volta. É necessário, também, fazer pelo outro; encontrar a medida entre não se perder nos outros e não perder os outros na gente. Abrir mão às vezes faz parte da tentativa de conciliar desejos frequentemente opostos.

Mais uma vez, essas concepções são minhas. E funcionam para mim. Mas não quer dizer que funcionem para todo mundo. Um tempo atrás, lembro que rolou uma polêmica na internet, porque houve uma valorização generalizada das pessoas que se abrem, que mandam mensagem, que chamam pra sair, pessoas que são “vamo? vamo” — e surgiu um grupo que disse “peraí, não é bem assim, nem todo mundo tem essa facilidade de manter contato e ser “vamo? vamo”, mas isso não quer dizer que a gente não se importe”. E é verdade mesmo, as pessoas têm formas diferentes de mostrar que se importam, de cultivar afetos, de se relacionar. Não existe uma forma certa. Mas existe, certamente, compatibilidade. Se eu valorizo o contato constante, é claro que vou ter dificuldade de manter amizade com uma pessoa que nunca encontra tempo para sair comigo, que está sempre ocupada, que não me manda mensagem com a mesma frequência que eu mando mensagem para ela. Não quer dizer que ela se importa comigo menos do que eu me importo com ela. Mas significa, sim, que as nossas necessidades dentro de uma amizade talvez não conversem.

Conforme fui revendo as minhas próprias concepções, a compatibilidade começou a me parecer mais importante que nunca. Afeto e afinidade são maravilhosos e podem ser cultivados por aí, mas eles não garantem compatibilidade. E, na vida adulta, entre demandas infinitas e muita confusão mental, se não houver compatibilidade — pelo menos — na forma de se relacionar, vai ficar difícil sustentar essa ligação por muito tempo. É claro que cada amizade tem a sua dinâmica própria e às vezes a gente constrói relações incríveis até mesmo com pessoas que não têm nada a ver com a gente, mas é preciso, sim, que a dinâmica funcione para ambos os lados. Infelizmente, não basta gostar de alguém, não basta se identificar com alguém. É preciso estabelecer uma dinâmica de relacionamento que seja satisfatória — caso contrário, a amizade vai ser mais sinônimo de frustração e solidão do que o oposto.

Entrar nesse processo de revisão — assim como todos os outros processos de revisão da minha vida — não foi nada fácil. Foi doloroso e exigiu que eu enxergasse também as minhas falhas, que eu enfiasse o dedo na ferida das minhas dificuldades em formar e cultivar vínculos. Foi preciso enxergar cruamente a amiga que eu vinha sendo para os outros, e os amigos que os outros vinham sendo para mim (sem maquiar ninguém nem enxergar conexão verdadeira naquilo que não passava de uma vontade minha de construir essa conexão). Mas tem valido a pena. De alguma forma, parece que me sinto mais leve ao desapegar de amizades que estavam comigo há algum tempo, mas já não me traziam nada de bom.

Como se fosse uma faxina no armário, às vezes a gente precisa experimentar todas as nossas roupas para ver o que ainda cabe, o que precisa de ajustes e o que já não dá mais certo. E, se não dá mais certo, então o melhor é mesmo desapegar, ainda que — por agora — a gente fique com poucas roupas, ainda que no armário sobrem grandes espaços vazios (e seja difícil lidar com eles também). Mesmo quando dolorosos, esses novos espaços vazios também podem ser uma oportunidade para gente preencher com roupas ainda não descobertas por aí. E o lado bom é que — assim como é mais fácil encontrar roupas quando se conhece o próprio corpo — fica bem mais fácil encontrar amizades compatíveis quando a gente aprende a reconhecer e acolher as nossas próprias necessidades.