Só não é solitário

Às vezes quero ficar sozinha.
(eu e a torcida do Flamengo.)
Não aquela solidão como o mundo costuma entender estar sozinho — amorosa, coração partido, frio, chuva, shoegaze. Digo solidão como estar na sua própria companhia, apenas.
Ser suficiente.
Tenho vontade de deixar as pessoas de lado, às vezes. Seguir minha própria vontade, fazer tudo ou absolutamente nada. Não sair de casa pra curtir minha própria companhia; sair, em outras vezes, pra curtir a companhia dos outros.
Alternar no que eu considero um movimento saudável uma vida social com uma vida menos social.
Esse comportamento meio cá e meio lá me levou a um ótimo livro chamado Como Ficar Sozinho (How To Be Alone), da Sara Maitland. Sara vive sozinha numa cidadezinha isolada na Escócia há quase uma década. Antes desse livro ela escreveu O Livro do Silêncio (A Book of Silence), e percebeu que muita gente (e ela mesma) associava o silêncio à solidão. Aproveitando sua experiência em estar sozinha, ela discorre sobre o que é a solidão e porque ela é importante.
Nós costumamos achar que estar sozinho — seja solteiro ou apenas curtindo um momento só — é tóxico. É mau visto, indica que alguma coisa está errada. O correto é você ter uma cara metade com quem dividir a vida, não é? Sair, ter muitos amigos, ser um alegre passarinho sociável.
Tenho um sobrinho muito novo, ainda um bebê. Assim como a maioria dos bebês, ele desconhece o conceito de estar sozinho. Crianças da idade dele só são deixadas sozinhas quando estão dormindo. Sempre que ele me visita e vê que estou sozinha no meu quarto ou em qualquer outro lugar, questiona: “o que você tá fazendo?”. Para ele, eu devo estar fazendo alguma coisa. Devo ter algum motivo para estar sozinha. Ele é novo demais para entender, mas um dia vai ser adolescente.
Na adolescência nós despertamos para a solidão. É o momento que nossa individualidade se exige apresentar — é quando passamos a nos trancar no quarto por tardes inteiras, fisicamente sozinhos mas nem sempre desacompanhados, seja pendurados no telefone com um amigo ou passando o dia na internet. Mas muito mais sozinhos do que algum dia consideramos estar.
Faz parte do processo de se conhecer, firmar sua personalidade, descobrir pelos em partes estranhas do corpo e explorar o sexo. Quando somos adolescentes aprendemos como é estar na nossa própria companhia.
E logo em seguida a negamos. A vida passa a exigir que você seja social — estudando, trabalhando, quebrando a cara em desventuras amorosas. Enchendo a cara por conta de desventuras amorosas. Entramos na vida adulta estufando o peito para falar de independência, tão orgulhosos por termos nos tornado flocos de neve únicos e especiais, mas sem nenhuma coragem de ficar a sós com nossos próprios pensamentos.
Quando alguém termina um relacionamento um dos conselhos mais comuns que recebe é tentar não ficar sozinho. Só que, muito pelo contrário, ficar sozinho pode ser libertador; vai te dar mais espaço pra pensar no problema, claro, e vai ser dolorido, mas também te ajuda a passar mais rápido pelo luto— toda perda é seguida de luto e o luto é um processo de assimilação e aceitação. Ficar confortável apenas com sua companhia é um sinal de auto-aceitação também.
Então ficar sozinho não é um problema. Não é sempre um sinal de depressão clínica — existem outros sintomas, vários deles. Não é sinônimo de falta de amigos e nem de introversão (e, ainda que fosse, ser introvertido não é um defeito). Gostar de ficar sozinho não é desistir do amor, porque nem sempre tem a ver com amor.
Conheço também pessoas que não conseguem ficar sozinhas. Não se sentem confortáveis e não entendem quem consegue. Elas também não estão erradas; cada um a seu modo, todos nós encontramos maneiras de lidar com a vida em sociedade. Alguns buscam a solidão, outros a multiplicidade. O que a Sara está tentando demonstrar é que na verdade não há certo ou errado nisso — há o que serve pra cada um. O que serve pra mim é, às vezes, ficar sozinha, questionando meus próprios pensamentos sobre as respostas que o ruído de fora não me deixa escutar.
(photo: Kersti K)