The Circle (2017) é NÃO Black Mirror

O que diabos foi isso que eu assisti?

O filme estrelado por Emma Watson e Tom Hanks foi muito antecipado pelas pessoas que viram seu trailer e esperavam um filme “mó Black mirror”, todavia no fim das contas o filme de James Ponsoldt acabou decepcionando público e crítica, e mesmo com uma ideia inicial interessante conseguiu fracassar em absolutamente todos os aspectos.

A obra é baseada em um livro de título homônimo, dirigido e roteirizado pelo autor da peça literária. A história se dá em torno de uma empresa responsável por uma grande rede social que lança a ideia de monitorar cada vez mais a vida das pessoas a partir do pressuposto de que, vigiadas, elas seriam mais prudentes por se sentirem constrangidas de infringir regras sociais

A ideia interessante e bastante atual interessa grande parte das pessoas que gostam de pensar a respeito do peso da tecnologia nas nossas vidas, mas o roteiro completamente amador e descuidado fomenta uma história vazia de sentido que não dá espaço para enriquecimento intelectual ou mesmo puro entretenimento.

Todos os personagens parecem existir para cumprir uma determinada função na história, de modo que não há absolutamente nenhum desenvolvimento de nenhum deles. Ninguém evolui, ninguém cresce, ninguém pensa. São todos estereótipos robóticos que aparecem e desaparecem sem a menor justificativa sempre que é conveniente para a história.

Essa unidimensionalidade circunda o filme por completo.

Temos um pai com esclerose múltipla que não é nada além de um doente, a mãe que cuida dele, o melhor amigo que critica o excesso de vigilância decorrente da tecnologia, uma amiga que inicialmente ajuda a protagonista a se inserir no meio e depois fica com inveja, o criador torturado que teme as consequência da própria crianção. Nenhum dos personagens ultrapassa tais características.

É preciso destacar que Emma Watson conquistou uma legião de fãs através de Harry Potter, a vimos crescer e se tornar uma mulher incrível e engajada em questões sociais, mas ela se mostra cada vez mais uma atriz bem abaixo da média. Completamente apática e aparentemente desconfortável o tempo todo é difícil acreditar naquela personagem que, já desfavorecida pelo roteiro é vazia de personalidade, sentido e motivação. O personagem de Tom Hanks pode ser descrito como um Steve Jobs apresentado no TED. A relação entre ele e a personagem da Emma não faz o menor sentido e acontece rápido demais. Em um momento, ela acaba de ser contratada, duas cenas depois ela vira bff do maior nome da empresa.

Em dado momento, a personagem de Emma Watson fala sobre uma regra que infringiu por não saber que estava sendo filmava me fez ter esperanças de que o filme fosse enveredar pelo pensamento foucaultiano sobre e punição, mas como todas as outras ideias, essa também durou dois minutos e nunca mais foi discutida.

Tudo isso faz de The Circle (2017) um filme prepotente, redundante, que ouviu alguém ter uma ideia legal e quis dizer que a teve sozinho, mas sem o cuidado necessário acabou escancarando que não fazia a menor ideia do que falava. A trama é envolta de pequenos fragmentos que parecem que fornecerão material para debate e reflexão, mas o filme não sabe como fazer isso acontecer e tudo parece demasiadamente jogado, como quando temos pensamentos e insights incríveis sobre a vida, a verdade e o universo e os anotamos no bloco de notas do celular, mas quando vamos relê-los eles não fazem o menor sentido. Esse filme é o nosso bloco de notas desajeitado com anotações de 3 anos atrás.

No fim das contas, é melhor ir assistir o primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror e ter uma noção um pouco mais eficiente do que pode acontecer se formos vigiados 24h por dia.