Memória, pra que te quero?
Fiquei sabendo (não que seja uma grande novidade) que pesquisadores da Universidade de Stanford e da Universidade do Oregon demonstraram que existe no cérebro humano um mecanismo biológico que bloqueia as memórias indesejadas. Freud tinha uma teoria parecida, algo sobre o bloqueio voluntário de memórias.
Fico cada vez mais fascinado com a capacidade do cérebro humano. Possuimos, já de fábrica, um sistema anti-trauma que nos protege de nós mesmos. O famoso “se eu não lembro, eu não fiz” nos possibilita viver uma vida tranquila, sem remorsos, traumas ou medos causados por acontecimentos desagradáveis.
Claro que este bloqueio a que referem-se os pesquisadores se dá em situações extremas, onde o trauma é realmente grande. Caso contrário, sairíamos esquecendo a torto e direito ex-amores, ex-empregos, ex-amigos e uma porção de outros ex, decepções e erros que acumulamos diariamente. Sou capaz de afirmar que se possuíssemos o controle desse tal esquecimento voluntário, algumas pessoas mal lembrariam de alguma coisa. Lembrar é algo que pode ser doloroso e, apesar de necessário para o crescimento e todo esse bla bla bla, ninguém quer de fato sofrer. Seria uma tal de apaga, apaga, apaga que não acabaria mais.
Entretanto, existem alguns mecanismos manuais de esquecimento — nem sempre funcionais — dos quais muitas pessoas fazem uso. “Eu bebo é pra esquecer!” — brada o sujeito largado pela mulher. Esse, talvez o mais famoso dos clichês, quase sempre tem pouco resultado. Ameniza-se momentaneamente, com a bebida, a dor da separação mas esquecer mesmo, no máximo o que se fez na noite anterior. Acorda-se no outro dia com o coração ainda partido e cabeça estourando.
Aliás, o esquecimento causado pela bebida, apesar de pouca credibilidade científica, também nos protege de muitos traumas. Em especial os causados pelo próprio teor alcoólico elevado do indivíduo. Certas coisas, se lembradas, seriam embaraçosas demais para se manter a cabeça erguida em público. Dancinhas sensuais, cantorias pra lá de ~afinadas~, dialetos totalmente novos mas não muito inteligíveis, são só alguns exemplos [vide a Bêbada de Curitiba] de coisas que nosso cérebro acha por bem apagar, ou em certos casos, distorcer para uma melhor qualidade de vida dos dançarinos de uma noite só.
Na contra-mão dos benefícios trazidos pelo esquecimento há também os tiros que saem pela culatra. “Guria, fiquei com um cara lindo — ou acho que era lindo — mas não lembro o nome pra adicionar no feice.”
Vez ou outra, apesar do descontrole alcoólico, faz-se algo de bom. Em um momento de coragem, ou total falta de noção, escolhe-se a pessoa certa, falam-se as palavras certas, age-se no tempo certo. Você a conquista e a esquece na mesma noite.
É alegre e ao mesmo tempo triste. Na pior, ou melhor, das hipóteses — e cabe a cada um definir — você sequer lembra ter encontrado essa pessoa. N’outro dia você encontra ela na rua, ou ela te encontra no Facebook e pergunta se você conseguiu chegar bem em casa, depois daquela festa. Os mais experientes sorrirão, apenas dirão que sim e gastarão um bom tempo tentando lembrar quem diabos é essa pessoa. Outros, não tão habituados com os esquecimentos providos pela bebida, responderão algo do tipo “Ah! Tu estava lá?” e por consequência receberão de volta um sim e um sorriso amarelo, do tipo que alguém que foi esquecido dá.
No fim, é difícil saber o que de fato é bom ou ruim em tudo isso. Particularmente, gosto de pensar que sofro de uma espécie de Amnésia Seletiva. Uma amnésia da alma, que esquece o que lhe convém. Lembro do que me faz melhor. Nem sempre lembro do que preciso, mas quase sempre, preciso muito do que lembro. Clichê, eu sei.
P.S: beba com moderação ou fuja dos flashs.
