Adivinha quem está falando?

Maisa Carvalho
Mar 3, 2018 · 7 min read

Padrões da discussão e o lugar de fala

De uns tempos pra cá eu tenho estado mais interessada nos padrões da discussão do que na discussão em si. É claro que nem a discussão nem a percepção de seus padrões são algo novo, mas eu acho que alguns processos foram tão facilitados pela internet que temos sim padrões novos. E a maioria das pessoas não se dá conta disso.

Por exemplo, as técnicas de distração e manobra que eram exclusividade dos meios de comunicação agora estão abertas ao público, que deixou de ser só consumidor dessa informação e passou a ter um papel ativo. Falo aqui do “gelo em Marte” que o Raul Seixas cantou: ele pode ser um estofo de falta de pauta ou um anúncio de uma descoberta revolucionária. E eu digo pode no presente porque esse exemplo específico ainda funciona, tanto pros meios de comunicação quanto pros indivíduos. Meu amigo Raphael outro dia me disse algo como “todo ano tem o último grande eclipse do século que só poderá ser visto novamente em 30 mil anos”. E ele disse porque, bom, tava todo mundo anunciando um desses acontecimentos.

É claro que antes da internet você podia começar um jornal de bairro, zine ou rádio pirata e de algum modo ser uma referência na comunidade de que fizesse parte. Mas isso demandava esforço e dinheiro, demandava coisas como sair de casa e se reunir presencialmente com outras pessoas. Hoje não. Com um pouco de organização você consegue juntar seu grupo identitário e fazer um barulhinho bom, e ninguém precisa nem levantar da sala, ou interromper a reunião porque precisa ir ao banheiro. Algumas coisas eram impossíveis antes da internet: agora dá pra organizar um flood (convidar conhecidos pra atolar a pessoa de comentários) contra o seu inimigo muito rapidamente, só é necessário definir quem é o inimigo e inflamar o grupo identitário correto. Para aqueles de nós que andam há tanto tempo pelo vale das sombras da mor… digo, pela internet, também não tem nada de novo: isso é apenas um melhoramento instituído pelo 4chan pras email bombs do século passado. Note-se que não estou me colocando contra essas práticas (ou teria de negar que 2008 foi um grande ano), eu estou me colocando contra… Errr… Feministas, “feministas”, “radis” ou que for usando essas práticas em discussões de feminismo. Oh!

Eu não quero construir uma história de política por chantagem e você também não devia querer porque o desmantelamento da Luta de Libertação das Mulheres tem muito a ver com mulheres caindo em chantagem.

Mas vamos ao chiqueiro buscar pérolas in loco, exemplos reais de reproduções de comportamento ruins.

Alguns meses atrás um grupo de direita atacou uma exposição de diversidade sexual, que no caso deveria significar “não heterossexualidade” (eu tenho críticas a chamar as pessoas de diversas mas aqui não é o lugar nem a hora e esse foi melhor termo que achei no momento). Uma isca dessas com anzol e linha não é algo que os grupos de esquerda deixariam de engolir na internet, e assim foi. Houve muita discussão sobre a arte e sobre liberdade de expressão, enquanto todo mundo (que já havia mordido a isca) ignorava que a curadoria do evento associou “diversidade” com zoofilia. Isso não importava, porque o centro da coisa era “direita versus esquerda”, então era importante defender a esquerda porque ela é educada. Ironicamente foi na mesma semana em que Maria Mac apanhou no Speaker’s Corner da “esquerda” “antifa” “libertária” “queer”. Mas isso foi tão mencionado quanto a associação asquerosa entre não-heterossexualidade e abuso sexual de animais.

Passaram-se alguns meses e um cara fez uma música com um nome que se parecia “Orgiazinha Sutil”, em que ele versava sobre embebedar mulheres, transar com elas e depois “abandoná-las”, nada muito diferente de uma sexta à noite no Rio de Janeiro. Particularmente acho essa letra tão bela e elevante quanto uma das minhas músicas favoritas do KISS, mas assim como não vou fingir indignação atrasada com Nothing to Lose eu não vou tornar “Orgiazinha Sutil” o centro da minha revolta de um dia, pra cumprir a pauta de ativismo daquele momento. Porque eu reconheço isso como técnica de distração, e aí cabe a mim controlar essa falsa resposta. Como cabe quem defendeu a exposição de curadoria escrota defender o direito de um zé ruela cantar “Orgiazinha Sutil”, que também é arte. Podemos analisá-la como uma defesa da prostituição como um trabalho, já que na letra as “convocadas” para a orgia são prostitutas. O que não dá é pra defender uma arte e atacar a outra, mudar as regras enquanto o jogo se desenrola.

E teve ontem.

Orégano da nossa horta

Um cara que fuma maconha e é subcelebridade foi acusado de financiar o tráfico. Em resposta ele postou uma foto no meio de uma plantação de maconha, e foi novamente acusado, dessa vez de ser “privilegiado”. São regras que mudam num jogo em que ele não tem como ganhar.

(Antes de continuar quero deixar claro aqui que não estou defendendo esse outro zé ruela. Eu não me importo que a galera vá lá e fale o que quiser pra ele, se for chantagem, que seja, se ele cair só mostra que é fraco e ignorantão. Gastem seu tempo na internet como acharem melhor, viu? Também não acho que ninguém tenha o poder de calar esse cara; até porque a chantagem depende de um ativo e um passivo e não é como se na condição de passivo ele tivesse algo, de fato, a perder)

Na discussão as pessoas que discordavam apontavam obviedades sobre o tal maconheiro: que ele é homem, rico, branco e heterossexual, sendo essas as razões pelas quais ele não poderia falar sobre legalização da maconha.

Observadores desatentos concluiriam que então essa é a regra: que apenas pessoas que fossem o oposto de homem, rico, branco e heterossexual poderiam falar do assunto. Ou que fossem pelo menos parte grande do oposto disso. Porém não. Qualquer pessoa em condições parecidas com a dele podia falar (sem ser acusada de alguma dessas coisas), desde que fosse contra ele. De novo, no padrão da discussão, essa não é uma postura exclusiva da internet, mas algo que foi naturalizado e que é mais provável de acontecer aqui, porque é fácil mobilizar pessoas por uma indignação qualquer. Difícil é focar suas atenções na mesma coisa por um grande tempo.

Ontem eu não consegui entender se o objetivo da discussão era que o maconheiro “checasse seus privilégios”, se se calasse ou uma mistura das duas coisas, mas sei que qualquer uma dessas coisas era um objetivo ruim. Primeiro porque o processo de “reconhecimento de privilégios” continua sendo um grande mistério pra mim, ou algo parecido com um teatrinho. Um homem que me diga que se reconhece como opressor não é melhor que um que não se reconheça, e numa discussão na internet qualquer um pode admitir qualquer coisa. Segundo porque eu não tenho modo nenhum de me interessar menos pela opinião de uma subcelebridade sobre determinada questão, então não vejo motivos pra estimulá-lo ou impedi-lo de falar. O que esse cara fala sobre legalização da maconha pra mim é tão importante quanto o que a bruxinha Ehrminhonny diz sobre “feminismo”. Infelizmente eu não tenho um jeito menos delicado de dizer isso, mas eu gostaria de saber qual é o tipo de deficiência cognitiva que faz com que as pessoas busquem opiniões de celebridades sobre assuntos políticos. Mas mais que isso, já que buscaram, queria saber por que não se dão nem ao trabalho de retrucar as idéias que consideram erradas. São tons e subtons frequentemente misturados de preguiça intelectual, chantagem, oportunismo, desonestidade e, claro, jamais nos esqueçamos da possibilidade mais simples, a burrice.

Eu falo todas essas coisas com muito medo de soar a grande defensora da liberdade de expressão. Não porque eu seja contra, mas porque defender liberdade de expressão na internet me parece um lugar de fala exclusivo para retardados, para as pessoas que não compreendem seu funcionamento. Pra se queixar dessa falta de espaço deve-se acreditar que precisa de muita coisa pra falar na internet, muito mais que um dispositivo e um ponto de acesso. Não precisa. O que as pessoas que acreditam nisso realmente querem dizer é que elas não estão sendo ouvidas. Pra isso tem outro Raul Seixas: “o problema é muita estrela pra pouca constelação”. E aí, realmente, depende dessas pessoas se organizarem e formarem uma base, e não delas pedirem pro inimigo que as deixe falar. Adivinhou quem está falando? Quem pode produzir na internet? Absolutamente todo mundo.

Eu não quero que as pessoas se calem porque eu discordo delas. Não quero que homens como o Luiz Otário, Tobias, Augusto ou Sérgio se calem porque são homens ou porque são asquerosos, ao contrário, quero que falem muito, que falem tanto que vocês percebam que eles estão errados, e que se calem porque vocês não serão mais o público passivo e chantageado. Eu quero provar que estão errados porque o lado frágil dessa corda são as mulheres, e como eu mostrei no post passado, eles estão nos excluindo muitíssimo bem (e não exclusivamente pela chantagem, que até se solidifica em exclusão social dentro do movimento, mas por ameaças e violência).

Sem mudar o padrão da discussão continuaremos impedidas de debater.

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