Direcionando a discussão do aborto

Tem que acabar a opinião

Com frequência a canalhada compara feministas com a direita, conservadores e puritanos por causa dos posicionamentos a respeito de pornografia e prostituição ou da origem da exploração reprodutiva.

Explicamos pacientemente que existem vários motivos pelos quais alguém pode se posicionar sobre um assunto. A possibilidade da lua cair do céu é um assunto. Se um religioso disser que ela não vai cair, ele está certo, embora acredite que não vai cair porque deus nos protegerá. Se um astrônomo explicar o motivo ele também estará não apenas certo, mas ele pode dar o motivo certo. E um astrônomo religioso pode dar o motivo certo e dizer que é desígnio divino, plano do arquiteto.

Uma pessoa que deteste animais pode se posicionar a favor da castração, concluindo que assim verá menos animais na rua. Uma pessoa que verdadeiramente ame domésticos vai ser a favor da castração pois o abandono é garantido e mais animais sofrerão. Um biólogo preocupado com a fauna silvestre pode ser a favor porque domésticos atacam silvestres.

Se o Hitley brasileiro disser que o ser humano respira oxigênio ele está correto. Eu estava assistindo agora há pouco o segundo debate dos presidenciáveis, e ele disse que vai investir em segurança por causa das mulheres, porque mulheres se preocupam se seus filhos chegarão vivos em casa. Se o que ele disse parece familiar, é porque é: a Audre Lorde disse uma coisa parecida em 1984, no Sister Outside. Eu discordo da proposição, mas a mesma canalhada que compara feministas com Hitleys seria capaz de acusar a Audre Lorde no mesmo sentido?

Objetivos (ou conclusões) comuns não tornam os motivos comuns, tampouco tornam os grupos aliados. E por que eu estou explicando isso?

Porque a gente precisa centralizar o discurso da liberação do aborto. As mocinhas que estão chegando agora precisam entender os motivos pra além de “meu corpo, minhas regras”. Porque o discurso abrandado de “ninguém é a favor do aborto” mostra um despreparo, desconhecimento e falta de compromisso que cheira a oportunismo e “as pobres falecem, as ricas fazem” é instrumentalização. Porque se a questão for simplesmente “legalização do aborto” uma direita liberal comprometida de verdade com o liberalismo não teria saída senão apoiar o aborto (a que preço, não sabemos). Porque, apesar disso, o aborto não é uma “pauta liberal”. Porque a legalização do aborto desconectada da autonomia reprodutiva E da discussão sobre maternidade compulsória faz com que ela se torne uma “discussão” em que vários lados “opinam”.

O problema de tratar um direito reprodutivo — que os homens naturalmente já possuem — como uma discussão de opinião e não como uma conscientização é que, mesmo que o resultado seja positivo para mulheres no presente momento ele pode ser revogado futuramente. Como de fato foi no Irã ou na USSR Stalinista ou na Polônia ocupada pela Alemanha ou na própria Alemanha do Hitley*.

O direito à autonomia corporal, à NÃO REPRODUÇÃO não pode variar por interesses do governo, da igreja ou, como sugerido, ser submetido a uma VOTAÇÃO DEMOCRÁTICA: primeiro porque não existe nenhuma garantia de que mulheres dentro de um sistema patriarcal compreendam a urgência de seus direitos**, segundo porque nenhuma mulher vai ser mais ou menos coagida a abortar dada a legalidade.

A proibição do aborto é uma punição de cunho sexual sobre a reprodução feminina. Uma punição que só atinge mulheres. Por que apenas mulheres, por que não somos mais criativos? Poderíamos negar tratamento para indivíduos soropositivos que se contaminaram em relações sexuais, afinal de contas, eles não se protegeram. Que tal punir o adultério com a prisão? Se o argumento para considerar um feto uma vida é religioso e está em consonância com o sexto mandamento, por que deixaríamos de honrar o sétimo mandamento?

De novo, porque a proibição do aborto, diferente das outras duas, atinge apenas mulheres. Se atingisse homens, seria vista como a violação de direitos que é. É nessa diferença que precisamos nos escorar para explicar às pessoas, principalmente às mulheres, sobre a necessidade desse direito: a violação de mulheres é tão comum, tão garantida, que passa desapercebida; o que é direito é visto como “privilégio” e consequentemente discutido como “opinião”.

Não é opinião. Não é um joguete político. É a retomada de nossa autonomia e de nossas vidas.

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* Aliás, pra quem tanto aprecia pautar a discussão de aborto como uma “questão de classe”: para as mulheres não arianas não apenas o aborto era permitido como elas eram INCENTIVADAS a abortar. Um governo diferente ou uma pitadinha de eugenia podem nos presentear com essa conjuntura, não à toa existe o argumento de que, com menos pobres tendo filhos mais segura ficaria a cidade de “trombadinhas”.

** Radical Feminism Today (Denise Thompson)

Não é que indivíduos não tenham escolha a não ser se dobrar às normas dominantes e de dominação. Nenhum regime é capaz de transformar humanos em autômatos ou de reduzir suas escolha a completamente zero. Até mesmo os governos totalitários do século vinte — com toda sua brutalidade, terror, assassinatos e mentiras — falharam em acabar com todas as revoltas. Ao mesmo tempo, quanto mais as pessoas são deixadas alheias aos seus interesses, manipuladas para propósitos alheios aos delas e impedidas de controlar as condições de sua própria existência, mais elas ficam sujeitas a condições de dominação. É contra essa realidade de dominação que o feminismo resiste, com o seu comprometimento à ideia de que seres humanos têm o direito de viver com liberdade e dignidade, simplesmente por existirem.

Original: 
It is not the case that individuals have no choice but to comply with dominant norms and the norms of domination. No regime can turn human beings into automata or reduce people’s choices to absolute zero. Even the totalitarian regimes of the twentieth century, with their widespread brutality, murder, terror and lies, failed to crush all rebellion. At the same time, the extent to which people are kept in ignorance of where their real interests lie, are manipulated for purposes not their own, are prevented from controlling the conditions of their own existence by powerful vested interests, is the extent to which they are subjected to conditions of domination. It is this reality of domination which feminism resists with its commitment to the belief that human beings have the right to exist in freedom and dignity simply because we exist.