Estamos em desvantagem biológica

Maisa Carvalho
Jun 5, 2018 · 4 min read

O direito à soberania corporal pode ser dado e revogado?

(Esse texto foi postado no meu perfil em uma rede social seguindo discussões sobre o aborto na USSR)

Eu falei no sábado sobre pontos irreconciliáveis a respeito do aborto e queria esmiuçar a idéia um pouquinho.

Mulheres e homens tem diferenças biológicas que deveriam ser só diferenças. Gerar filhos não deveria ser um fardo para além da gestação (nem um paraíso, nem a melhor coisa do mundo), a criação de seres humanos deveria ser do interesse da sociedade em conjunto. Mas a realidade é que mulheres estão em desvantagem biológica.

Essa desvantagem, essa diferença, é o que faz com que homens tenham controle total sobre seus corpos — pois jamais terão as mesmas responsabilidades, não se interessam por tê-las — e possam também modificar os nossos. Qualquer que seja o peso do aborto, da gestação ou da maternidade, eles o desconhecem; esse descontrole físico sobre a reprodução é muito distante da realidade deles, seja biologicamente, seja socialmente. As consequências reprodutivas são diferentes.

Em vez de haver um reconhecimento dessas diferenças e uma busca de reparação, que culturalmente, talvez, nos aproximasse mais do que chamam de “igualdade”, o que ocorre é uma exploração dessa diferença. Quando eu menciono a exploração da POSSIBILIDADE reprodutiva eu não falo apenas de usar mulheres como reprodutoras, eu falo de socializar mulheres para cuidar da prole e de todo mundo, menos delas. As mulheres não precisam de fato reproduzir para que sejam empurradas para esse papel.

Uma solução cínica seria dizer para que as mulheres parassem de transar: o celibato garantiria o controle reprodutivo. Faz muito sentido, mas pra manter o controle das mulheres existe o estupro, que os homens, não à toa, confundem com sexo. A confusão não é filha única da pornografia porque ao contrário da pornografia, é histórica. Mas é sem dúvida uma afilhada da pornografia, cujo centro é a submissão feminina. Não ter medo de estupro fala novamente sobre ter soberania sobre o próprio corpo. Confundir sexo e estupro também é reflexo dessa soberania, reflexo de quem consome e de quem é consumida. E são questões básicas sobre nossa casta, sobre manter-nos nela, são questões universais sobre quem organiza o terror e sobre quem é aterrorizada.

Quase todo celibato

Então voltamos à proibição do aborto na URSS e esse é o ponto irreconciliável: o direito ao controle do próprio corpo não é retirado de homens POR SEREM homens, nunca foi, seria preciso ter muita criatividade para tal. Como esse controle de mulheres é histórico ele é naturalizado o bastante para que as pessoas achem que pode ser “dado”, “tirado” ou sequer “debatido”. Uma sociedade que considerasse mulheres iguais não poria esse direito para jogo — e não precisaria colocá-la, porque se a adesão era tão grande, as próprias sovietes reconheceriam a necessidade de revolucionar tendo filhos. Bastava tê-los, em vez de proibir as poucas traidoras antirrevolucionárias que que tão egoisticamente, tão individualmente, não queriam ter filhos (talvez desse pra fuzilá-las também) e queriam essa soberania corporal. Que a maternidade nunca tenha sido revolucionária ou que leva quase duas décadas pra poder mandar um ser humano pra guerra… Aí é outra história.

Ennis/Dillon. Que duplinha! E foi assim que Jesus nasceu. (Hellblazer, Fear and Loathing parte 1)

Aliás, isso é literalmente só a história, e o motivo maior para debatê-la é não repeti-la. Não é um simples “anticomunismo”, é por isso que vocês REPELEM mulheres quando tentam justificar os motivos de tirar nossos direitos. É a forma como falharam NO PASSADO, mas a mensagem que estão passando para O FUTURO é “Isso pode acontecer de novo caso seja necessário. A igualdade entre nós é secundária, se precisarmos dos seus serviços reprodutivos”.

O modo como falham NO PRESENTE é muito parecido. Quando um presidenciável de esquerda ignora a exploração sexual e a trata como “um simples trabalho”, quando acha que uma via reformista (vishi maria) é o melhor modo de tratar a questão, quando os debates do próprio partido dele ignoram pautas essenciais para falar de REGULAMENTAR A EXPLORAÇÃO SEXUAL, aí vocês falham rude. E com uma rudeza que, se não fôssemos feministas, estaríamos correndo para abraçar a direita, porque o recado de vocês é COM A GENTE NÃO DÁ, NÓS NÃO LIGAMOS.

Por fim vou parafrasear uma frase feita até porque nem tenho mais o que dizer sobre as alucinações que li esses dias: “educação para decidir, profilaxia para não abortar, aborto legal e livre para não morrer… E cuidados para as crianças.”. Nenhum direito a menos, nenhuma migalha travestida, nenhuma rifa de nossos corpos.

Maisa Carvalho
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