Três Vezes Nós, por Laura Barnett

Comprei este livro crente que era um apenas uma história romântica, segundo algumas avaliações que tinha lido. Três Vezes Nós, no entanto, é mais que a história de um jovem casal que se conheceu nos arredores da Universidade de Cambridge, após um acidente com a bicicleta de Eva. Não é uma história apenas sobre como Eva e Jim enfrentarão mundos e fundos para fazerem acontecer sua história de amor — ou não.

É uma história sobre a vida.

Laura Barnett apresenta aqui três versões diferentes da mesma história. Mesma cronologia, mesmos acontecimentos — as chegadas, as idas, as separações, as perdas, as conquistas — tudo se repete em cada uma das versões. O que muda é o que desencadeia cada um desses acontecimentos e como as personagens reagem a ele. O grande mérito de Laura não é construir uma história romântica e emocionante (embora seja), mas sim mostrar com muita naturalidade como as pequenas atitudes do dia a dia podem mudar, pra sempre, a vida de um casal, ou até mesmo de uma família. Como uma palavra não dita (ou dita), uma ação (ou a falta dela) podem desencadear uma série de alegrias ou infortúnios, sobre os quais perdemos o controle. Como nossas reações às mais pequenas adversidades da vida podem determinar como e com quem terminaremos nossos dias — e não é sobre isso que se trata, afinal, construir uma vida com alguém?

Aliás, este é outro ponto alto da narrativa inteligente de Laura (juro que não é spoiler): o livro não termina quando o amor acontece. O livro termina quando a vida termina. É um livro completo. O que o torna tão intrigante é o que acontece nas reviravoltas de cada uma dessas três versões da vida.

O livro é todo construído em cima apenas da narrativa e da série de fatos que compõem a vida das personagens, com pouco ou nenhum espaço para reflexões dentro dos capítulos. Tudo isso fica por conta do leitor. É algo que senti falta, considerando que os acontecimentos das histórias, por vezes, são tão intensos que apenas nos envolvem e não permitem nos distanciemos e olhemos para como tudo se parece com nossas próprias vidas.

Um ponto que dificultou a leitura foi a falta de fluidez. Cada novo capítulo refere-se a uma versão diferente e, frequentemente, me vi obrigada a voltar várias páginas para recordar os acontecimentos ou como chegou-se àquele ponto da história. Para os leitores que, como eu, gostam de aproveitar momentos do dia como ônibus/metrô, elevadores e horário de almoço pra leitura, a compreensão da história pode ficar comprometida. É quase como se não houvesse tempo para que o leitor se envolva muito com uma só versão da história, porque no capítulo seguinte o mesmo evento será desconstruído e recontado de maneira completamente diferente.

Ao final do livro, existem páginas em branco dedicadas especificamente às anotações importantes para facilitar a identificação de cada uma das versões — mas duvido, honestamente, que alguém pare no meio da leitura para fazer isso.

Para um romance de estreia, Laura começou muito bem. Um enredo muito real, inteligentemente construído e envolvente. Poderia ser mais reflexivo, já que o tema permite, e talvez mais linear e fluido na alternância entre todas as versões. Mas nada disso lhe diminui o mérito.

VAI PRO SEBO OU FICA NA ESTANTE? Não diria que entra pra lista dos meus livros preferidos, mas é bastante marcante. Por ora, fica na estante. Visualizá-lo, ali no cantinho, pode ajudar a lembrar como é difícil — e maravilhoso — começar uma vida com quem se ama. E construir esse relacionamento, tijolinho por tijolinho, pensando com muito cuidado em como dispor cada um deles. Porque um tijolinho mal colocado pode trazer por terra, com o tempo, toda a imponência de um castelo… feito para durar por muitos anos.