“Um homem chamado Ove”, por Fredrik Backman

Pretensiosa a missão de escrever uma breve resenha sobre este livro. Isso porque só mesmo quem tiver a chance de lê-lo poderá entender um pouco da sua grandeza.

Ove é um personagem muito peculiar. É, porque tem manias e impulsos e convicções muito particulares, o que faz com que todos os outros personagens descolem muito dele na trama. Mas, ao mesmo tempo, tem traços que qualquer leitor pode facilmente identificar em um avô, tio, pai, sogro, um vizinho, quem quer que seja. Este é, aliás, um dos pontos altos do livro: Ove é tão bem construído por Backman que sequer se parece com um personagem. Todo mundo tem ou vai ter alguém meio Ove em sua vida.

Ove teve uma juventude muito sofrida e cheia de perdas, apenas compensada pela chegada em sua vida de Sonja, sua futura esposa. Toda a sua vida depois disso girou em torno dela e de seu trabalho. Por isso mesmo é que a perda da mulher e sua demissão tiveram um efeito tão devastador na vida de Ove, a ponto de querer acabar com ela, de maneira resoluta.

A grande mensagem do livro é a de ressignificar. Coisas, pessoas, sentimentos, crenças. É sobre estar aberto para descobrir um ponto de vista diferente e sair da zona de conforto. É sobre deixar pessoas irem, para que novas possam chegar. É sobre acolher. É sobre perdoar, aos outros e a si mesmo. É sobre cuidar e ser cuidado. É sobre aceitar queno nosso tempo e a nossa vontade nem sempre são os mesmos do que o que está escrito em nosso destino. É sobre dar-se uma segunda chance.

Backman conseguiu abordar tantos e tão profundos temas da convivência humana em sociedade nas tramas de cada personagem… de modo que cada um deles contribui intensamente na trajetória de Ove — algo que, muito perfeitamente, se desenrola apenas no final e traz inúmeras surpresas ao leitor.

Me peguei em um misto de emoções várias vezes durante a leitura. Entre rir e chorar de emoção. Entre querer que o livro acabasse pra saber do final e ao mesmo tempo não querer acabar porque estava muito apaixonada por Ove. Sem dúvidas, este livro superou todos os outros que já li e hoje é o meu preferido da vida.

Abaixo, um dos meus trechos preferidos:

“Amar alguém é como se mudar para uma outra casa”, Sonja dizia. “No começo, a gente se apaixona por todas as coisas novas, a gente se pergunta toda manhã se aquilo é nosso de fato, como se tivesse medo que alguém, de repente, entrasse correndo pela porta e reclamasse que tinha havido um grande engano e que não era, de jeito nenhum, seu direito morar num lugar tão lindo. Mas com o passar dos anos a fachada fica gasta, a madeira racha aqui e ali, e a gente começa a amar esse lugar não tanto porque ele nos parece perfeito, mas por todas as suas imperfeições. A gente fica conhecendo todos os detalhes desta casa. Por exemplo, como evitar que a chave emperre na fechadura na época de frio. Quais placas do chão cedem um pouquinho quando se pisa nelas e como se deve abrir as portas do armário para não rangerem. E é isso, são exatamente todos os pequenos segredos que fazem desta, a sua casa.”

VAI PRO SEBO OU FICA NA ESTANTE? Vai para as mãos de todos os meus amigos mais queridos, porque Ove traz lições que todos nós ainda teremos que aprender sobre as ironias da vida.

O filme, a propósito, foi indicado a 2 categorias para o Oscar 2017: melhor filme estrangeiro e melhor maquiagem. ☺