Black Mirror: episódio Volto já

Maithê Prampero
Jul 30, 2017 · 5 min read

A palavra distopia, também chamada antiutopia, designa um estado de opressão extrema, em que se vive em condições muito ruins. Para mim, essa palavra define o que a série Black Mirror trouxe.

Por meio de episódios polêmicos, que causaram furor nas redes sociais, a série da Netflix chocou, trouxe reflexão e mostrou que a nossa realidade atual não está tão longe daquilo que vimos em seus episódios um tanto quanto perturbadores.

Demorei um longo tempo para ver a série, mas quando comecei quis ver até o fim, todas as temporadas, naquele frenesi que só algumas poucas coisas conseguem trazer. Particularmente, gostei muito de cada episódio, apesar do mal-estar provocado por alguns.

Sem dúvida alguma o episódio número um da segunda temporada, cujo título original é Be right back (traduzido como Volto já), é o meu favorito. O aspecto melancólico e patológico dele me fez pensar muito, o suficiente para colocar em palavras.

Antes de falar sobre ela proponho a reflexão da seguinte pergunta: se fosse possível se aproximar de uma pessoa querida que faleceu, você faria isso?

Não estou falando de nada espiritual, mas de um aspecto tecnológico, em que aproximação significa trocar mensagens, ligações, fotos e conversas com uma espécie de aplicativo que utiliza dados da pessoa que morreu e cria respostas semelhantes ao que a pessoa diria.

Parece interessante, e talvez num momento de luto, em que o desespero e a vontade de ter a pessoa perto estejam no auge, poderia ser uma boa alternativa.

A história do episódio é de um casal heterossexual formado por Ash e Martha. Ash vem a falecer no início do episódio e o que eu disse acima é exatamente o que acontece. Martha se vê em uma tristeza extrema e utiliza um aplicativo para se aproximar do marido que se foi.

Até esse momento do episódio acho que o que senti foi melancolia, uma certa empatia e compreensão com a dor dela e com a forma de lidar com essa dor. Estamos num mundo cada vez mais tecnológico e um aplicativo como o que citei não parece distante das possibilidades reais.

Não faço ideia de como seja perder uma pessoa amada dessa forma brutal chamada morte e acho que talvez falar sobre esse episódio seja uma experiência um pouco distante da realidade do luto.

De qualquer forma, o foco é a patologia vinculada a uma tecnologia que não substitui pessoas reais, vínculos reais, afetos, sentimentos. A ideia que ficou para mim foi essa.

Sinto que em muitos episódios de Black Mirror a ideia a ser passada é de ironizar o caminho que estamos trilhando rumo à um mundo mais tecnológico. Progresso é ter mais tecnologia. Ou não.

Não bastasse a ideia de conversar com o aplicativo, sistema, ou seja lá o que for que permite a comunicação com a “pessoa” que morreu, Martha toma conhecimento de um tipo de boneco que pode ser comprado.

O boneco tem uma estrutura que imita os poros, os músculos, como se fosse de verdade. Além disso, utiliza fotos da pessoa e vem “personalizado”, como desejado pelo cliente. Capitalismo, vamos lá!! As pessoas vivas já são tratadas como mercadoria dia a dia, vendendo a única coisa que tem, que é sua força de trabalho. Agora transformar pessoas que se foram em mercadoria é demais.

Admito que minha inocência me permite um choque frente a coisas assim. Voltando à definição inicial, acho que a distopia tá virando realidade e Black Mirror só exagera um pouco, mostrando um futuro bem próximo do nosso presente.

Quando o boneco entra em cena o meu sentimento de melancolia se torna uma angústia, no sentido de que dá para notar como a personagem de Martha está se desligando do que aconteceu com o marido.

Em uma cena, ela diz a seguinte frase: “Senti tanto a sua falta”. Nesse momento eu só consegui pensar que aquilo era o auge de um autoengano que mascarava a dor. O luto é necessário infelizmente, mas seria incrível se não precisássemos passar por isso. De forma saudável.

O que fica para mim até o final surpreendente da série é que um dia talvez cheguemos a esse ponto e não sei o que eu faria. Não sei se gostaria de ter algo próximo da pessoa amada que se foi, talvez a dor fosse tanta que cogitaria um boneco, um aplicativo, o que a tecnologia permitisse.

Entretanto, talvez viver o luto e seguir em frente com a dor da saudade fosse melhor do que usar uma máscara. No caso da série Ash se vai e fica claro que ele é insubstituível, embora existam estratégias para afastar a aceitação desse fato.

Na série da vida, pessoas vão embora de nossas vidas e acho difícil substituí-las por qualquer aparato tecnológico. Até hoje, desconheço tecnologia que substitua qualquer das pessoas que amo, e desconheço também algo que supra saudade, abraços apertados e olhares ao vivo. Skype, Whatsapp ou qualquer outro aplicativo do tipo, são placebos. Enquanto não temos nada melhor, usamos o que dá. Sempre tentando diminuir a nossa dor. Sempre tentando vencer algumas barreiras.

Sobre distância, saudade e tecnologia, o episódio marcou porque promoveu o que mais admiro em um filme, série, obra: a reflexão. Espero que mais pessoas possam e queiram refletir. 🙂


Originally published at heacentonoe.wordpress.com on July 30, 2017.

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