O fabuloso destino de Amélie Poulain

Faz tempo que não escrevo e parece bem bom retornar a escrita com um filme, melhor ainda se for um daqueles que marcam nossa vida. E por que não falar da Amélie?
A primeira vez que assisti à essa obra francesa achei interessante, a trilha sonora era chamativa, a atriz fantástica e os cenários bonitos. Minha visão não passou do básico, do trivial, foi isso e só.
Uma segunda vez eu decidi que realmente veria o filme, com atenção, com o meu coração em ação, porque só a razão não dá conta de explicar Amélie Poulain. Acho que só a razão não explica nada. Sem coração não somos nada.
De 2001, o filme não está atrasado. Isso é fantástico em cinema, o cruzamento da obra com o tempo, através do tempo. Dezesseis anos e os olhares de Amélie Poulain ainda fascinam e as falas ainda ficam gravadas no coração.
Da primeira vez achei o filme um romance. Jurei para mim que estava errada. da segunda vez me prometi que não veria como um romance, afinal de contas não se parecia com um. Eu estava errada, muito errada. Romance é algo que ultrapassa Hollywood, ultrapassa o clichê. Eu estava errada porque história de amor pode sim ser de forma não esperada, não planejada, pode sim ser com pessoas tímidas, fechadas, pode sim não ser tradicional. Amor, romance, podem sim estar num filme em que parece que os temas são todos menos esse. É ai que está o “je ne sais quoi” de Amélie Poulain. Talvez até o “je ne sais quoi” da vida.
O narrador do filme conta fatos aleatórios, espontâneos, a respeito dos personagens. Exemplo disso é falar três coisas que as pessoas gostam e três que odeiam. Interessante pela subjetividade que denota, é também construtivo quando se pensa em simplicidade.
É uma delícia a simplicidade que alguns momentos da vida permitem. Aquele momento em que você senta numa roda de amigos e pergunta um sonho das pessoas, ou qual o livro favorito, qual o filme que faz os olhos brilharem. É fascinante pensar que um amigo odeia abacaxi, e que outro não suporta blusas em tom verde. Banal para alguns, rico em subjetividade para outros. Outros que podemos todos ser um dia, outros que não só olham, mas que veem de fato as pessoas, o mundo e as simplicidades todas.
Amélie Poulain foi uma criança peculiar, ensimesmada e se tornou uma adulta ensimesmada, cheia de medos. Tão cheia de medos que se esconder é mais seguro e cômodo. O cômodo, entretanto, nem sempre é o caminho que permite que coisas incríveis aconteçam.

O filme é daqueles que você precisa absorver enquanto processo contínuo, precisa assistir várias vezes para em cada uma sentir aquela coisa de: “ahh, essa frase é tão metafórica para esse momento da vida” ou “nossa, da primeira vez não captei essa mensagem”.
Uma das frases mais marcantes do filme para mim foi a seguinte: “Você não tem ossos de vidro Amélie. Pode suportar os baques da vida”. Contextualizando um pouco mais, o senhor da foto acima é conhecido como o Homem dos ossos de vidros, em decorrência de uma enfermidade que fragilizou seus ossos e que exige cautela para se locomover.
Ao falar isso para Amélie, o vizinho dos ossos de vidro sintetiza tudo. Ele consegue resumir o que é o íntimo da questão: Amélie precisava se jogar, porque apesar das dores que a vida causa, a gente aguenta o baque.
Não é tão fácil, pular na vida não é essa simplicidade. Uma frase dita e tudo muda. Mas uma frase estimula pensar, refletir e transformar. E mais frases surgem e um dia o impulso é dado, o ar vem até o cabelo e o vento bate no corpo. E ai, é só sentir a vida.
O filme é, para mim, uma obra alternativa. Mas, após reflexões e momentos em essência, percebi que era sobre amor. O amor como ele é, não como um romance irreal prega. Amélie ama. Eu também. Espero que você também, porque amar é sentir os baques da vida dia-a-dia. Só se jogue. Os ossos e o coração não são de vidro. 😉
Originally published at heacentonoe.wordpress.com on August 24, 2017.
