Para onde eu levo minha militância?

Quando João Victor — menino negro e pobre de 13 anos de idade — foi perseguido e brutalmente espancado por um segurança de uma franquia Habib’s na Zona Norte de São Paulo, a notícia de sua morte em decorrência à violência me revoltou. Segundo testemunhas, a criança sofreu perseguição do gerente e do segurança do estabelecimento por pedir dinheiro e comida à porta da lanchonete, mas o laudo mais tarde divulgado pelo IML gerou especulações ao informar que João Victor sofreu um infarto por ingestão de drogas.
Assim como em casos de violência contra a mulher, mais uma morte negra foi refutada, especulada e contradita por seus causadores. Embora a família de João Victor questione se o menino teria mesmo morrido caso não tivesse sido atacado por funcionários da lanchonete, o Habib’s sequer comentou a postura preconceituosa e desumana adotada por uma de suas franquias contra pessoas em situação de rua. Em vez disso, a rede de fast-food preferiu atribuir a morte da criança exclusivamente ao estado de vulnerabilidade social da vítima.
“Como todo menino de apenas 13 anos, poderia ir à escola, fazer amigos, crescer, trabalhar, apaixonar-se por alguém, formar uma família e bem lá na frente, concluir seus dias rodeado pelos filhos, netos e outros que o amassem. No entanto, caiu vítima do mais trágico conjunto de circunstâncias a que milhares de crianças brasileiras estão vulneráveis nos nossos tempos: falta de assistência social, falta de educação, falta de alimentação, falta de estrutura familiar e a devastadora exposição às drogas” (via UOL Notícias)
Indignação e total repugnância ao ouvir menções ao Habib’s permearam minhas conversas durante algumas semanas após a morte de João Victor. Clamei por boicote à lanchonete responsável pelo infarto do menino e à rede Habib’s de uma forma geral nas mídias e plataformas sociais; me zangava ao perceber que a maioria das pessoas ao meu redor e dentro dos meus círculos estavam indiferentes ou completamente alheias à morte violenta de mais uma criança negra no país…
Contudo, toda essa aversão durou até o momento em que me vi em uma fila, aguardando para fazer um pedido da esfiha mais barata do dia. O problema é que eu tinha me convencido de que, para saciar a minha fome naquele bairro de classe média com apenas R$ 4,00 no bolso, a opção mais viável seria comprar quatro bib’sfihas.
João Victor foi afastado para um fundo nebuloso da minha memória, ainda presente, mas incômodo, inconveniente.
Uma semana depois, um amigo sugeriu que comêssemos algo numa lanchonete Habib’s próxima de onde estávamos. Eu hesitei, mas não recusei. Ir até lá era cômodo. Seria chato de minha parte recusar.
Na semana passada, me deparei com uma imagem preocupante na minha timeline do Facebook: o restaurante e lanchonete Flor do Paraíso, que fica em frente a um dos locais onde trabalho, pendurou uma placa dentro do estabelecimento informando que não faria mais nenhuma refeição para ser entregue a moradores de rua. Tal atitude obviamente revoltou a um bom número de pessoas… e a preocupação, no caso, ficou por minha conta: sou cliente do Flor do Paraíso, gosto da comida e do serviço e até agora estive alheia à existência da placa que exclui pessoas socialmente vulneráveis do local.
Aquilo me afetava como consumidora. Era incômodo.
Hoje, tendo apenas 30 minutos para almoçar — entre as aulas das 11h00 e 11h30— e nenhum outro restaurante próximo à empresa disponibilizando o self-service tão cedo, optei por ir até lá. Ou, pelo menos, essa foi a justificativa que eu encontrei para não me sentir tão culpada por não boicotar um restaurante que não permite que os clientes entreguem comida a pessoas em situação de rua.
Enquanto almoçava, eu não pude deixar de me questionar: para que lugares eu levo minha militância, afinal? Minha militância causa algum efeito real ou é apenas um passatempo pessoal? Por que militar é muito mais difícil na prática? Quais são os limites entre as demandas nas quais acredito e a rotina que preciso levar em sociedade? Esses limites, de fato, existem?
Os dois casos ilustrativos envolvendo restaurantes e moradores de rua só me fazem refletir sobre as inúmeras vezes em que me percebi indignada por uma situação, mas me calei em prol das minhas interações sociais ou da minha sanidade mental. Quantas vezes eu optei por não entrar em uma discussão com alunos, colegas ou amigos porque aquilo seria um desperdício de tempo e provavelmente abalaria a nossa relação? E quantas vezes eu optei por não me envolver em um debate sobre “causas” para simplesmente tentar preservar minha saúde psicológica e emocional?
O maior embate, entretanto, é saber diferenciar a minha necessidade de preservação emocional do meu desejo em abraçar certas comodidades. É cômodo não levar a minha militância para o meu local de trabalho. É cômodo fazer vista grossa para o comentário preconceituoso de um amigo a fim de manter a amizade. É cômodo não deixar de frequentar um lugar ou não deixar de fazer algo porque não adiantaria, todo mundo faz igual.
Eu sei que questionar a diferença entre omissão e cautela pode ser algo enlouquecedor e, por essa razão, às vezes é mais saudável manter a nossa indignação em casa. Porém, não é difícil concluir que nem todas as ocasiões em que evitei confrontos foram apenas para me resguardar. Houve casos em que eu, na verdade, evitei me sentir incomodada.
Por mais que o bom senso seja necessário para discernir as lutas das quais precisamos nos proteger das lutas que valem o esforço, ainda é imprescindível que tenhamos uma postura proativa para que possamos atender às inúmeras demandas das minorias.
Me parece um argumento simples de que talvez a Queda da Bastilha também precise acontecer em esferas individuais para que revoluções coletivas aconteçam.
Eu quero justiça para João Victor.
