Eu sou meu próprio lar: sobre amar a própria companhia

Maju Gonçalves
Aug 26, 2017 · 3 min read
ilustra do Oi, Aure

Eu consigo lembrar com muita clareza da primeira vez que fui ao cinema sozinha. Não havia saído de casa com esse objetivo. Na época (2011) eu cursava o último ano do ensino médio e morava longe dos meus pais, em um apartamento do centro da cidade junto com meu irmão. Estava sofrendo com o pé na bunda que eu tinha acabado de levar de um menino muito babaca — mas que na época eu considerava um Deus, é claro.

A gente ainda trocava mensagens e o meu plano maligno era o seguinte: chegar no cinema com algumas horas de antecedência e, nesse meio tempo, convencer o tal moço de se juntar a mim. Não deu certo. Todo o charme que eu joguei via SMS pra ele só me rendeu uma mensagem seca de “bom filme aí”.

Derrotada, mas já muito longe de casa pra desistir, fui assistir o filme. Os Smurfs. Como eu já deveria ter previsto, era uma porcaria. Mas para a minha surpresa, a experiência não foi tão ruim assim — mesmo que com um retrogosto de rejeição.

Corta para 2015.

Nesse meio tempo eu voltei e dei um pé na bunda daquele menino, passei no vestibular, vim para Florianópolis e aprendi — a contragosto — a fazer muitas coisas sozinha. Fui me acostumando.

Mas a descoberta da minha paixão de sair por aí sem a companhia de ninguém foi na viagem que fiz pra Buenos Aires, em janeiro de 2015. No final do ano anterior eu aproveitei uma promoção muito louca de passagens e decidi que ia passar uma semana na Argentina. Sozinha.

Eu só percebi o quanto essa ideia era estranha quando comecei a contar meus planos para amigos e familiares. A cara que eles faziam variava entre choque e pena. Como boa libriana com muito Escorpião no mapa que sou, isso só me fez querer provar pra todo mundo como essa ideia era ótima e que não tinha como dar errado — muito embora eu não acreditasse tanto assim nisso.

Resumindo a história: fui e foi maravilhoso. Cada minuto na minha companhia foi de um prazer e de uma felicidade que é difícil de conter quando conto minhas aventuras de lá. Dali pra frente, eu me tornei especialista em fazer coisas sozinha.

Onde eu quero chegar com essa história toda é que nós — e quando digo ‘nós’, me refiro especialmente a mulheres mesmo — fomos ensinadas de que não somos seres completos e plenos se não tivermos alguém do nosso lado para dividir os momentos bons. Que as nossas experiências não são valiosas ou especiais o suficiente se elas foram vividas só por nós mesmas. Que existem certas atividades que não fazem sentido sem alguém pra compartilhar.

Eu luto fortemente contra isso. Acredito com todas as minhas forças que mereço colocar a minha roupa mais bonita e me levar em um restaurante caro — e beber uma garrafa inteira de um vinho gostoso pra acompanhar. Valorizo minha companhia na beira da praia, pegando um solzinho e dando um mergulho sem ninguém pra cuidar da minha bolsa (que só tem uns trocados amassados e meio saco de Pingo D’Ouro misturado com areia mesmo). Nunca mais me senti patética escolhendo um filme e o maior saco de pipoca pra me tirar do tédio num domingo de tarde.

Isso vai soar um pouco brega, mas a liberdade — e ao mesmo tempo a responsabilidade — de ser a única pessoa encarregada de me proporcionar bons momentos abre um mundo novo de possibilidades de se dar prazer. E essas mini-aventuras podem dar muito certo e você acabar em um restaurante vietnamita num bairro hipster de Buenos Aires, bebendo o melhor drink que você já experimentou na vida, ao lado de duas professoras de literatura que, veja só, trabalham na faculdade que você estuda. E às vezes você vai pegar uma hora e meia de trânsito pra chegar num restaurante, sentar na pior mesa do lugar e comer um nhoque com molho de quatro queijos cansado. Mas você só vai saber disso se esquecer o que Tom Jobim cantou e acreditar que é possível ser feliz sozinho.

Gostaria de ter nesse texto um grande desfecho motivacional com 3 dicas matadoras de como aprender a amar a própria companhia. Não tenho. Aprendi na marra a fazer isso e foi um caminho sem volta. Espero que vocês também encontrem os seus.

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    Maju Gonçalves
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