A Igreja Escondida

“Sou fraca, dúbia, há uma charlatã dentro de mim embora eu fale a verdade.” (Clarice Lispector) — Caminho que leva à Igreja Escondida.

Eu precisava escrever uma minibiografia para um projeto no qual estou participando, texto simples e sucinto. Simples? Escrevi algumas palavras e encaminhei para a aprovação na semana passada, mas qual não foi a minha surpresa ao receber o retorno de que o texto é poético, todavia não dizia muito sobre mim. “Você está se escondendo…” Não perceberam, mas aquela “acusação” me tocou forte, tocou porque é verdade. E por que faço isso? Do que tento me proteger? O texto da Igreja Escondida já estava pronto naquele momento, mas decidi modificá-lo a fim de tentar caminhar um pouco mais rápido, numa tentativa de entender por que me escondo tanto. Peguei um trajeto mais curto, apesar de mais doloroso. Mesmo assim, as palavras não foram poucas, nem ainda encontrei as respostas que procuro…

Vou tentar não me esconder muito atrás de tantas letras, porém já peço desculpas, pois às vezes isso será necessário como uma forma de sentir menos o impacto de tudo aquilo que começa a ser desenterrado. Vou direto à igreja El Nazar — localizada em Goreme — e ao seu guardião Mehmet. Imagine uma igreja esculpida em rocha com afrescos bizantinos pintados no século X: essa é El Nazar. Imagine um senhor com seus bem cuidados 70 anos, de cabelos e bigode grisalhos e um sorriso simpático: esse é Mehmet.

Ele é responsável por cuidar das belezas presentes em El Nazar e cobrar as entradas dos visitantes que querem lá entrar. Ele é o bilheteiro, é o segurança, é o protetor do lugar, e no dia em que caminhávamos pelas trilhas de Goreme foi quem nos apresentou os tesouros da região. Sem cobrar qualquer quantia, abriu as portas de El Nazar, nos levou para conhecer a Casa dos Pombos que fora construída também no século X e, ainda, nos ofereceu çai (chá turco) e bolachinhas em seu escritório, que fica ao lado da igreja.

Senhor muito simpático e que parecia ter um verdadeiro interesse por nós, revelou-nos que era massagista e, para comprovar, nos ofereceu uma amostra. Nazar, pombos, çai, massagem, recepção calorosa… Não era preciso mais nada, porém ele parecia que não queria nos deixar ir e, quando estávamos quase de saída, como um mágico que tira mais um truque da cartola, me ofereceu uma chave.

Diante de meu olhar questionador, Mehmet começa a falar que ele é guardião de outra igreja, esta fechada ao público. Ok, então não há o que fazer, pensei. Mas ele aponta para a chave e diz que poderíamos visitá-la, bastava apenas que seguíssemos por alguns minutos uma determinada trilha e encontraríamos a tal Igreja Escondida. Explica que não poderia nos acompanhar, mas que precisávamos ver os encantos escondidos naquele recinto.

Uma trilha não muito frequentada, uma igreja escondida, uma chave. Andamos até um ponto, descemos uma escada íngreme esculpida nas paredes de uma rocha, e lá estava a entrada. Com um misto de emoção e curiosidade abrimos a porta e penetramos num universo totalmente desconhecido. Uma igreja bizantina ainda mais antiga que El Nazar, com diversos afrescos desfigurados por conta de conflitos religiosos. A energia do local nos enfeitiçou por longos minutos, no entanto era necessário voltar e devolver a chave a seu devido guardião… No meio do caminho, lá estava Mehmet nos aguardando para oferecer mais uma xícara de çai e uma massagem. Afortunados, eu pensava, só podíamos ser afortunados por termos encontrado recepção tão surpreendente. Porém…

“Nascer é difícil.” (Clarice Lispector) — Porta da Igreja Escondida.

Aquele dia foi perturbador para mim, e como não fazia ideia de como tudo aquilo havia me afetado fiquei quieta e guardei solitariamente muitas sensações. Naquele dia eu não fazia ideia de que Mehmet seria o personagem que me apresentaria uma história escondida, mesmo que eu ainda agora não saiba exatamente que história é essa. Da mesma forma que ele abriu as portas de uma igreja que todos visitam e sabem o que irão encontrar, ele apresentou um local muito bem guardado, como se El Nazar fosse minha consciência e a Igreja Escondida, meu subconsciente que finalmente encontrou a chave de que precisava para ser aberto.

Naquele dia algo muito nauseante aconteceu comigo, mas optei por não dividir, pois achava que não iriam acreditar em mim. Nem eu acreditava. Afinal, como colocar em dúvida uma pessoa que havia sido tão boa conosco? Então preferi esquecer, mas sabia que haveria um momento em que precisaria resgatar aquele acontecimento.

E o momento em que El Nazar e a Igreja Escondida finalmente estão conversando entre si chegou, revelando aos poucos uma história amarga, pulsante, que em carne viva me faz sangrar e sentir toda uma dor que até então não sabia que era possível senti-la. Dói. Dói muito.

Sei que serei julgada e, talvez, outras pessoas também sejam. Seria possível um olhar sem qualquer juízo de valor? Provavelmente não, no entanto o que espero é que, depois de enfrentar os fantasmas, eu consiga parar de me esconder e dizer para quem eu quiser, principalmente para mim: “Esta sou eu”.