Horas profundas

“Os meus lábios são brancos como lagos… / Os meus braços são leves como afagos, / Vestiu-os o luar de sedas puras… // Sou chama e neve branca misteriosa…” (“Horas rubras”, Florbela Espanca)

Mão com mão, mão no ombro, mão na cintura, pés que se movem, rodopios.

Surgem a vibração da música, a energia dos movimentos e a alegria de dançar. Há quanto tempo não me dava esse prazer? Deixar que o ritmo me leve, não me preocupar se os passos estão corretos, simplesmente curtir. Dançar junto, dançar separado, dançar como criança e cair na gargalhada com um parceiro que acabara de conhecer.

Combinar de sair para dançar com uma amiga, aventurar-se em sair para dançar sozinha… permitir-me deixar que uma nova experiência dê um ritmo.

Iluminada pelo sol ou pelas luzes de uma pista de dança, absorvo todas as informações que se aproximam: tranquilidade, alegria e saudade se intercalam, criando uma sensação ímpar.

Diversas músicas foram dançadas, diferentes parceiros de passo, desconhecidas mãos conduzindo… Difícil encarar os olhos à minha frente; desvio o rosto, observo outras pessoas, tento não deixar que a mente acabe com a leveza do momento.

Fecho os olhos. Danço de olhos fechados.

Penso na estrela Intrometida da constelação do Cruzeiro do Sul e recordo da primeira vez que eu encontrei a Via Láctea. Saudade.

Vejo estrelas e sinto que danço entre elas. Sinto-me como um lenço ao sabor de uma brisa suave, apesar de sempre próxima de Intrometida.

A música que toca sem parar dá a batida para a condução de mãos que pouco conheço. Sou conduzida, mas não esqueço de que o rumo da dança também depende de meus passos. E é isso que me dá alegria, saber que, apesar de o ritmo não ser dado por mim, a dança só é possível se eu quiser dançá-la, vivê-la e senti-la.

A dança é a dois, mas ela só acontece se eu quiser. A condução pode ser do outro, mas isso não me tira o protagonismo do movimento. A dança da vida é minha, e só danço com e do modo que eu quiser.