O desafio da próxima viagem

Saudades! Sim… Talvez… E porque não? Se o nosso sonho foi tão alto e forte. Que bem pensara vê-lo até à morte. Deslumbrar-me de luz o coração! Esquecer! Para quê? Ah! Como é vão! Que tudo isso, amor, nos não importe. Se ele deixou beleza que conforte. Deve-nos ser sagrado como o pão! Quantas vezes, amor, já te esqueci, para mais doidamente me lembrar. Mais doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fosse sempre assim: quanto menos quisesse recordar, mais a saudade andasse presa a mim! (“Saudades”, Florbela Espanca)

O primeiro pensamento depois da separação foi partir. Não tenho emprego, não tenho filho nem ninguém para sustentar e poderia conseguir dinheiro alugando o apartamento… o impulso dizia para sumir a fim de, quem sabe, arrancar todo aquele mal-estar que parecia insuportável.

Pensei em viajar, cair na estrada novamente e desbravar outros lugares… mas esse desejo não durou nem 24 horas, pois refletindo um pouco mais descobri que, apesar querer viajar longamente algumas outras vezes, eu não queria fazê-lo neste momento.

Hoje não quero viajar pelo mundo. Hoje escolho estar aqui, estar presente. Hoje escolho a opção que me parece a mais difícil: eu escolho viajar dentro de mim para explorar e reconhecer vivências que tentei ignorar até o momento.

Esta foi a primeira jornada para a qual me joguei sem ter qualquer dúvida se queria mesmo vivê-la, sem me paralisar por um instante diante das dificuldades que poderiam surgir e do medo de enfrentar tudo aquilo que há tempos está trancafiado, mesmo sabendo que sentiria as dores de feridas mal cicatrizadas ou ainda escancaradas.

A expedição mal havia começado e já tive de ultrapassar obstáculos, situações delicadas e experienciar conflitos… Rememorar a infância, resgatar sensações escondidas, expressar pensamentos íntimos, encarar as metáforas da vida e reviver e verbalizar situações nunca compartilhadas, me olhar e me ouvir.

São tantas as situações vividas que preciso me explodir todos os dias para construir uma mulher muito mais forte, ampla e verdadeira comigo mesma, sem deixar que a preocupação de agradar ou ser aceita por outra pessoa acabe guiando minhas ações, mas sem também deixar de respeitar o espaço dos outros.

É um momento de olhar para minhas atitudes e assumir a responsabilidade daquilo que aconteceu, compreender que eu e todos a minha volta fizemos o máximo possível em determinado momento, aprender o verdadeiro significado de doar e amar, e dar espaço à transformação.

Eu achei que já havia feito a viagem de minha vida. Engano meu. A grande viagem está sendo realizada agora, com grande determinação e em potência máxima. E mesmo que a água e o vento oscilem bastante, agora eu quero enfrentá-los.

Hoje não quero fugir. Quero mais é olhar nos olhos de quem me é importante e dizer sem a proteção de uma tela de computador tudo aquilo que acho que precisa ser dito. Hoje a aventura sou eu.