O que faz você criar vínculos?

“A pele é um espaço que substitui o mundo. Quando a tocamos, abarca tudo.” (“Todos os homens são mentirosos”, Alberto Manguel)

Há um bom tempo venho refletindo sobre a questão do vínculo em relações familiares, de amizades e amorosas. No entanto, nas últimas semanas, esse assunto tem estado ainda mais presente, pois me pego frequentemente pensando sobre como tenho me dedicado às pessoas e, não raro, com qual profundidade me entrego.

Pergunto-me se o desejo de viajar é uma fuga ou um encontro; se permanecer é me prender ou me encontrar; se tocar é sofrer ou amar; se viajar impede os vínculos, se estes ficam mais frágeis ou se podem se fortalecer; se as separações cortam os laços, os revelam ou os aprofundam; e se os muros que construímos ao longo da vida são capazes de impedir que as ligações se formem.

Tenho observado bastante as pessoas e coisas à minha volta, ouvido o que têm a me dizer e como eu recebo tudo isso. Reflito, pondero, retorno, observo, ouço mais uma vez e questiono outras tantas. As perguntas que surgem não são fáceis de serem respondidas, pois não basta escolher entre um simples isso ou aquilo; muitas vezes a resposta é isso e aquilo.

Foi na tentativa de fugir que resolvi me encontrar, entrando ainda mais em mim; foi ao decidir permanecer que entendi minha necessidade de partir; foi ao tocar e me deixar tocar que absorvi sensações e começo a entender meus medos; foi viajando, literal e metaforicamente, que compreendi que meus vínculos sempre acontecem de alguma forma, eles não são frágeis e que, mesmo distante, percebo que alguns laços ficam ainda mais fortes, se revelam e floreiam.

E percebi que era uma falácia acreditar que estaria mais “segura” com os obstáculos que construí por causa do medo de viver e para evitar um possível sofrimento vindo de frustração ou separação. A verdade é que não houve muros, obstáculos, oceanos e distâncias capazes de impedir que vínculos se formassem.

O vínculo simplesmente acontece. E, em alguns casos, se enraíza em uma profundidade que parece ser impossível de se chegar e toma uma proporção muito maior do que achava que poderia se encaixar dentro de você.

O vínculo não se importa com os muros que pensamos ter criado, pois quando há um sentimento verdadeiro ele encontrará uma forma de se aprofundar na terra, crescer, se embrenhar no solo e procurar os caminhos menos pedregosos até ultrapassar o muro. E, sem perceber, como raízes em movimentos orgânicos, o vínculo toca em você e faz que sua vida fique emaranhada na do outro.

Talvez isso não faça o menor sentido, mas é dessa forma que me sinto. Mesmo com as muralhas construídas por mim, o vínculo encontrou no subsolo, na escalada e no voo uma forma de me tocar e me transformar.

Neste momento, acredito que não importa o lugar, a distância ou o período, quando há uma fagulha de um sentimento puro e verdadeiro, o laço das vidas acontece.

O medo impediu que eu demonstrasse afeição a muitas das minhas ligações, e aprender a deixar que ele não comande minha vida é uma tarefa diária e que tenho, aos poucos, conseguido cumprir.

O resultado está sendo aprender a viver o presente, respeitar meus sentimentos e permitir que eles tenham espaço na minha vida. E, assim, deixar que tantas coisas se aproximem: a espontaneidade, o sorriso, o abraço, o cuidado…

E vejo como o vínculo com os outros fica mais gostoso de ser vivido.

E percebo como o vínculo comigo mesma fica cada dia mais fortalecido.