Arte de Gabriel Pitcher. George Town, Malásia.

Palavras que não se calam

Data: Agosto de 2015. Local: você no Brasil; eu na Croácia.

Sua mensagem: “É bom você deixar registrado todos os momentos da viagem, qualquer detalhe, por mais insignificante que lhe pareça. Tirar fotos é bom, mas creio que a sensação do momento não se registra em imagens. […] Um diário de bordo, que tal?”.

Comentário: até aquele momento, eu gastava por dia em torno de uma hora, às vezes duas, organizando as fotos. Escrever era difícil…

Minha resposta (após seis meses):

Você e algumas pessoas já conhecem a história de quando eu perdi a câmera fotográfica. O que muitos não sabem é que isso aconteceu um dia após eu ter recebido sua mensagem e que, desde então, ela não saia mais da minha cabeça. Teria sido uma simples coincidência?

Olha os danos aí!

O que muitos não sabem é que comprei outra câmera assim que chegamos a Istambul, câmera que foi quebrada em Bali (mas depois de uns apertões aqui e ali voltou a funcionar, apesar do visor defeituoso), câmera que foi perdida em Kuala Lumpur e que foi reencontrada após dois dias, quando já havia comprado uma terceira câmera fotográfica.

Da mesma forma que sua mensagem, as situações pareciam me conduzir a uma direção que, por algum motivo, eu não tinha forças para seguir; sentar e colocar os pensamentos em ordem num papel era simplesmente cansativo demais. Desde a perda da primeira câmera, tive diversos tipos de experiência e encontrei tanto alegrias quanto frustrações que mexeram bastante com minha percepção. Sentia-me agradecida por estar vivendo tudo aquilo e, ao mesmo tempo, me sentindo um lixo por não conseguir lidar com as situações com a serenidade de uma monja.

Eram muitas verdades que eu parecia ter de dar conta, e não estava conseguindo. Precisava traduzir essas ideias para me dar um pouco de alívio, mas por receio escolhi o trajeto de não mexer naquilo que parecia conturbado demais. Tudo estava muito frenético e, como a mente não parava, a insônia começou a comparecer nas minhas noites. Foi aí que resolvi, finalmente, escutar suas palavras.

E que alívio senti quando, numa noite insone, peguei caderno e caneta e vomitei o que surgia na mente e o que parecia estar entalado na garganta. Eu sabia o que tinha de fazer, mas até chegar a esse momento não foi fácil… Ainda não é. Eu encaro as palavras como se estivesse encarando o meu eu-inimigo.

Eu ouvi de muitas pessoas, antes de partir, que eu deveria fazer um diário de viagem. Achei aquilo divertido e até acreditei que esboçaria algumas linhas, mas só percebi que isso seria uma verdadeira necessidade quando li e entendi sua mensagem, mãe. Se eu tivesse seguido seu conselho desde o início, talvez já tivesse aprendido como expressar as cores e sons que me penetraram, já soubesse como fazer piada de algumas situações e encontrado uma forma de pedir desculpas por ter demorado tanto tempo para escutar o que suas palavras estavam dizendo. No entanto, quero que saiba, mãe, que sua voz é poderosa e tem um timbre muito mais forte do que você possa imaginar, pois ficou meses reverberando na minha mente.

Acontece que eu usei todo o tempo necessário para amadurecer algumas ideias e assumir para mim mesma a importância dos caminhos que eu decidi seguir.

Sabe, mãe, apesar de ter demorado, seu conselho está sendo muito importante, pois dele estão surgindo outras descobertas. Desculpe-me por ter tentado calar sua mensagem, mesmo que inconscientemente. De alguma forma, sinto que calei você.

Mas nunca tive intenção de fazer isso. Quando quiser falar estarei aqui para escutar. Posso não concordar, posso argumentar, mas a intenção é nunca mais ignorar.

Então que tal, juntas, cada uma a seu modo, tentar soltar cada vez um pouco mais e um pouco mais alto aquilo que nós pensamos?

Não precisa me responder agora, leve o tempo que achar necessário…


Não pretendia fazer deste canal mais uma forma de falar com minha mãe sem a intenção de realmente me comunicar com ela. Por isso, antes de decidir publicar este texto, enviei-o para ela e perguntei se poderia compartilhá-lo. Aí está o resultado.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Maísa Kawata’s story.