Presença da não presença

“Eu sou simples como Bach” (Um sopro de vida, Clarice Lispector)

Vivo dias em que tenho muito e nada para contar. Há anotações, rabiscos, gravações de tantas situações, pensamentos e sensações que me surgem espalhados por diversos cantos… Há tanto para escrever, mas questiono-me até que ponto gostaria, de fato, de revelá-los. Textos genéricos, sobre os outros, sobre mim; coisas tão íntimas que sempre coloco em dúvida a finalidade de publicar aquelas (estas) palavras. Como não me parece justo apresentar algo que possa expor uma pessoa sem seu consentimento, o correto seria falar de mim; porém falar de mim também não é uma forma de falar do outro, das pessoas a minha volta ou que fizeram parte de minha vida?

Como escrever sobre mim sem mencionar outra pessoa ou sem revelar um eu que só eu conheço e tenho vergonha — ou medo — de mostrar? Como me esconder de palavras tão minhas em um momento em que cansei de me esconder da vida? Por mais que eu tenha essas dúvidas, elas estão em um ponto além de onde me encontro… a verdade é que eu ainda não aprendi a escrever e, muito menos, saber o que quero revelar e aonde quero chegar com isso. Quem eu quero alcançar?

Em todos os textos que escrevi, existe algo do qual me arrependo de ter exposto, pois me dei conta que me revelei demais, que mostrei reflexões que há tempos guardava só para mim e que falei de medos que me assombram todos os dias sem ainda tê-los vencido…

No entanto, também me dei conta que é por meio destes textos que tento colocar minhas reflexões em ordem, enxergar um sentido ou chegar à conclusão de que tudo não passa de insanidade. Aos poucos começo a ter uma leve ideia de quem desejo alcançar com estas palavras. É por estes textos que eu me penso, me questiono, me exponho e me encontro… é nestes textos que me alcanço.

Então poderia escrever só para mim, alguns provavelmente pensarão. No entanto, ao longo do tempo, descobrir que mostrar o que escrevo, relatando experiências, é um dos exercícios que devo praticar e que me aproxima de algumas respostas.

Foi por meio dessas reflexões que descobri a possibilidade de recuperar a música e a dança que tanto tocaram e sapatearam em minha infância, e é por meio delas que penso sobre as muitas coincidências que aconteceram nos últimos dias: por que o nome do mecânico de bicicleta colocou a não presença novamente presente, por que a estrela que se intromete é tão importante na constelação, os encontros com uma artista que me traziam a lembrança de uma vida deixada de lado e que eu sabia que era necessário recuperar, as cenas que resgataram um passado e me fizeram ouvir o silêncio… Coincidências ou não, esses e tantos outros acontecimentos me deixaram bastante inquieta, pois evidenciavam não presenças que me deixaram criar uma confusão carregada de desejo, medo, sonho e saudade.

Ao começar a organizar as ideias, seja no papel, dançando, pedalando ou nas muitas conversas que tive sobre a vida, percebi a real natureza dessa desordem. Eu precisava descobrir o que fazer com a presença da não presença: aceitar ou eliminá-la; fazer da não presença presente; fazer da presença da não presença não presença… Mas seja lá o que eu fosse fazer, em qualquer opção, havia o receio de como eu iria me reagir.

Comei a travar um intenso monólogo para tentar solucionar aquela situação, mas quando surgiu uma pequena oportunidade do mono se transformar em di encontrei a atitude que tanto aguardava. Do diálogo veio a surpresa de que encontrar a dignidade me bastava naquele momento. “É, foi digno”, pensei. No monólogo pós-diálogo senti finalmente um alívio, como se um peso tivesse sido tirado de minhas costas. Respiro. Eu mesma tirei esse peso de mim. Senti que a não presença sempre estará presente e carregada de sentimento, mas que a presença dela não me assustava mais, como se a presença da não presença se fizesse, por fim, não presença. E a partir daí podia me empenhar ainda mais no que eu desejava… fazer da presença da não presença uma presença maior de mim.