
Rosto sem face
Quantas são as máscaras que você utiliza? De quantas precisa para (sobre)viver? Uma para o ambiente de trabalho? Outra para encontros familiares? Para relacionamentos amorosos? Para amigos? Para você mesmo? Você conhece todas as suas máscaras? Você realmente precisa de todas elas?
Sem perceber, acabamos construindo estruturas dentro de nós mesmos para lidar com as tarefas que nos são impostas. Seja lá onde for, você é cobrado a se portar e agir de maneira que seja “adequada” ao ambiente. Às vezes, no trabalho, mostrar sensibilidade e compaixão pode não parecer uma boa saída, pode dar impressão de que você é fraco demais para a tarefa que deve ser executada ou criar uma afinidade com o outro que não é apropriada. Outras, ser expansivo ou “feliz demais” é algo censurável, pois discrição é a palavra de ordem.
Levar problemas pessoais ao trabalho é inconcebível, como se fosse possível tirar todos aqueles sentimentos e guardar temporariamente numa caixinha! Problemas de relacionamento devem ser exclusivos de um quarto fechado — lacrado de preferência –, não se atreva a mostrar para os outros que a felicidade não reina em seu castelo. Quem é você para falar que contos de fadas não existem?
Somos cobrados a mostrar confiança e determinação a todo momento. Somos cobrados a não demonstrar o que de fato sentimos, pois isso poderia ser interpretado como insegurança, fraqueza ou simplesmente inadequado. E aí, máscaras são construídas a todo o momento para darmos conta de tantas demandas, de tantas exigências de como se deve portar, de como se deve sorrir, de como se deve sentir.
Máscaras que caem
Comecei a moldar máscaras ainda criança. O mundo ensinava-me que só chorava quem era fraco, que tristeza deve ser guardada para as paredes de seu quarto — para si mesma –, que para ser levada a sério no trabalho você deve ter determinada postura… Era muita coisa para encarar, e o artifício que encontrei para me ajudar nisso tudo foi a construção de máscaras. Construí diversas. E espessas.
Todas as manhãs, ao abrir os olhos, pensava no dia que iria enfrentar. Durante o banho listava as tarefas e já começava a pensar nas máscaras que deveria vestir ao sair de casa. Havia dias que bastava uma; outros, precisava de mais. Com o passar do tempo, surgiram os primeiros efeitos dos anos em que estive escondida atrás de um sorriso que não queria dar ou de uma expressão indiferente, quando queria demonstrar quão absurdo era determinada situação.
As máscaras aprisionavam; eu precisava sair. Os sorrisos já estavam sem graça, as ações não condiziam com a expressão da face, os olhos desviavam-se procurando outros horizontes…
Desmascarada
Teria conseguido tirar as máscaras se não tivesse saído do emprego? Se não tivesse me afastado da rotina? Difícil saber… Arrisco a dizer ‘não’ ou que esse processo teria sido muito mais difícil e longo. Algumas máscaras tirei com facilidade assim que me afastei das tarefas profissionais, outras foram arrancadas de meu rosto durante os meses consecutivos — mesmo aquelas que eu queria manter — sem que soubesse que isso seria feito ou que elas existiam. Tinha máscaras que nem mesmo eu conhecia.

Sabia que algo estava acontecendo, mas não fazia ideia da profundidade e das consequências que aquilo poderia trazer. Teve momentos que desejei parar, mas já não era possível. Não tinha mais nada. Não tinha mais rosto. A carne foi exposta, arranhada e cravejada de verdades. Foi rasgada.
Não acreditava que estava vivendo situações tão únicas. A dor começou a crescer, cada vez mais intensa, cada vez maior… até que explodiu.
E depois?
O depois é o agora, e no agora eu não tenho resposta.
Queria dizer que após esse processo, descobri uma nova pessoa dentro de mim e que ela anda com toda a confiança por aí. Não, não descobri. Fato é que estou privada de máscaras e aprendendo a viver sem elas, um dia após o outro. Estou diante da possibilidade de construir uma vida sem ter de me esconder atrás de algum falso-eu. Se é viável? Não sei.
Talvez, na sociedade e época atuais, isso não seja possível. Pode ser que tenha de, eventualmente, recorrer a esse subterfúgio para conseguir me readaptar a este lugar, mas não seria melhor simplesmente ser no meio de tanto não ser?
Sendo eu, todos os instantes, não seria essa uma maneira de me respeitar e respeitar as pessoas ao meu redor?
Não seria essa a maneira de experimentar uma vida que deseja ser bem vivida?