Saudade que aproxima

Estava no trânsito e te vi passando de bicicleta, e me deu uma vontade de ir ao trabalho de bike. Comprei uma bicicleta, vamos pedalar? Me ensina a pedalar? Você vai me buscar de bike na escola? Ah, então vou levar meu capacete! Você vem de bike? Você veio de bike?
Essas foram algumas de várias frases que ouvi entre 7 de setembro e 6 de outubro e que me motivaram ainda mais a cumprir o Desafio da Bike. Foram trinta dias seguidos pedalando, quase 300 quilômetros percorridos, economia de 171 reais, muita superação, respeito, (re)conhecimento, sol, chuva, vento, frio, calor, cansaço, força…
Tudo começou quanto notei a presença da saudade de pedalar. Eu, que sempre deixei essa atividade para horas de lazer — e, até pouco tempo atrás, pedalava com certa resistência –, estava com dificuldades de encontrar uma hora de descanso durante o fim de semana para rodar por aí; também pesava o fato de ter diminuído a frequência das atividades físicas por causa de uma perda de peso brusca. Eu queria pedalar, mas não podia perder mais nenhum grama sequer… Então, em um momento iluminado e com uma pitada de insanidade, irresponsabilidade (e alguns outros is), apaguei todos os meus senões e me desafiei a não sentir mais saudade: deveria pedalar — mesmo uma simples volta no quarteirão — por trinta dias seguidos. Dessa forma, pensei, me obrigaria a tirar um tempo para descansar e eliminaria a saudade. Em relação à perda de peso… bem, teria de encontrar uma maneira.
Quando me propus (ou teria sido uma imposição?) esse desafio, não me dera conta de que teria de enfrentar muito mais do que a simples falta de tempo. Não ficaria satisfeita em pedalar por somente 100 metros… e me sentir frustrada naquele momento não seria uma boa opção para mim. Olhei minha agenda e não encontrei um horário para inserir mais o pedal entre as minhas atividades; o jeito foi aceitar que o tempo de deslocamento para ir a um compromisso, antes gasto dentro de um transporte público ou caminhando, deveria ser feito em cima de uma bicicleta. No entanto, a partir dessa decisão, surgiu outro obstáculo: teria de percorrer trechos sem a proteção de uma ciclovia e precisaria enfrentar o medo que sempre tive de andar lado a lado de carros, ônibus, caminhões e motos.
Mas eu enfrentei e, após trinta dias, o que ganhei foi muito mais do que algumas horas de pedal. Estou superando medos, ampliando meu limite físico, aumentando minha força e aprendendo a me compreender em cima de uma bicicleta. Minha relação com a bike está cada dia mais madura, pois ela me apresentou alguns mecanismos meus: saber identificar como estou em um determinado instante; se tenho de pedalar mais devagar porque a mente está em outro planeta e se necessito triplicar a atenção; que não sou feita de açúcar e que posso me molhar; saber que tem horas que é preciso dar um descanso ao corpo; descobrir que consigo subir ladeiras intermináveis; soltar um grito no meio da rua para evitar ser atropelada por um carro que sai com tudo da garagem sem olhar se tem alguma bicicleta passando pela ciclovia…
Sem mencionar que fiz da bike mais uma opção de deslocamento, chego mais disposta aos compromissos e, às vezes, até mais rápido do que indo de metrô (e com certeza mais rápido do que táxi). Percebi que a relação pedestre-bicicleta-automóvel está muito mais respeitosa e que minha relação com a cidade e as pessoas ampliou e intensificou ainda mais.
O desafio dos trinta dias acabou, porém minha relação com a bicicleta se fortaleceu e mostrou que eu e ela amamos estar juntas. Ela me ensinou um pouquinho sobre o meu funcionamento e a perceber que há dentro de mim, e eu tento aprender um pouquinho sobre o funcionamento dela… E isso ficou ainda mais evidente quando, num dia em que fui a uma loja de artigos esportivos para comprar roupas, acabei levando apenas acessórios e ferramentas de bicicleta (algo totalmente surreal em outra época). Saí do local rindo de mim mesma e pensando nos caminhos que temos de percorrer até encontrarmos algo que nos divirta.
Em relação à perda de peso, estou chegando à conclusão de que, além de diversos outros fatores, pedalar todos os dias contribuiu para me reaproximar daquilo que me é importante. Não só finalmente consegui parar de perder como recuperei um pouquinho de peso ao encontrar na superação dos medos uma forma de fazer as pazes comigo mesma. Nunca havia pensado que a bike pudesse me levar tão longe.
É, às vezes, percorremos rotas diferentes das planejadas no início, mas é isto o que acontece: poder pedalar por veredas que nos levam a descobrir outras belezas. E é bom ter a sensação de ser a motricidade… da vida e da bicicleta.
Se interessar, veja os outros textos do desafio da bike:
- O início: “Dança comigo”.
- Quinze dias de desafio: “Desafio da Bike”.