Tom da minha voz

“E tinha agora a responsabilidade de ser ela mesma. Nesse mundo de escolhas, ela parecia ter escolhido.” (Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector) — Estátua da praça Sultanahmet, Istambul, Turquia.

Não entendo muito sobre psicologia e por isso tenho dificuldade de compreender por que a mente apaga algumas cenas que vivemos. Ela tenta nos proteger de alguma situação? É uma forma de fugir de uma realidade que não estamos prontos ou não queremos enfrentar? Ou é algo muito mais simples que me escapa neste momento?

Somente após vários dias vivendo e revivendo, passando e repassando os momentos em El Nazar é que lembrei o que fiz quando retornei ao hotel no final daquele dia. Numa tentativa de me livrar dos acontecimentos dos quais não gostei, tomei um dos mais longos banhos da viagem, desejando que tudo o que não fosse bom escorresse ralo abaixo e que ficasse comigo apenas as boas lembranças. Não mais olhar de cobiça, não mais toque, não mais impotência, não mais sensação de desamparo. Não surgiram lágrimas, mesmo elas desejando aparecer. Sou forte, independente e posso aguentar o que for, repetia para mim mesma. Fecho o registro, o do chuveiro e o do acontecimento.

Saí do banho como se nada de ruim tivesse ocorrido. Sentei-me na cama, procurei encostar levemente meu braço ao da pessoa que estava lá. Uma forma de não me sentir solitária, apesar de já ter sido calada por mim mesma. Ainda sentia um nó na garganta, mas em vez de soltar o que me incomodava, recorri a outra maneira de limpar ainda mais a situação: escrever uma mensagem para as pessoas mais queridas relatando a experiência de conhecer Goreme e exaltando a figura que nos abriu as portas de um universo desconhecido, El Nazar e a Igreja Escondida. Após o relato daquele dia, fechei a mensagem da seguinte maneira:

Toda vez que eu ouvia histórias de que um estranho era convidado para comer na casa junto à família eu pensava que era invenção, uma história aumentada e que estavam romantizando uma situação. Em Istambul, já havíamos vivenciado a receptividade das pessoas e haviam nos avisado que no lado asiático da Turquia poderíamos encontrar essa receptividade ainda mais acentuada. Bem, este relato não é uma invenção nem está aumentado, na verdade, há outros tantos detalhes que foram cortados para não prolongar o texto. Mas Mehmet virou nosso romance na Capadócia e, talvez por isso, essa história esteja um pouco romantizada. A emoção do dia permanece até agora, não só pela impactante beleza dos lugares que visitamos, mas principalmente pela beleza que temos encontrado nas pessoas.

Li e reli essa mensagem tentando entender a complexidade da mente. Os turcos são maravilhosos, alegres, amigos, simpáticos… A Turquia é cheia de cores, sons e aromas encantadores. As paisagens tão diferentes uma das outras, tão únicas e tão tocantes. As igrejas e mesquitas são maravilhosas, as trilhas têm uma energia incrível… Desejo fortemente voltar a esse país e revisitar todos as regiões por onde passei e conhecer tantas outras, pois a Turquia foi um dos lugares que mais me cativaram durante a jornada.

No entanto, preciso confessar que o romance na Capadócia foi inventado como um complexo subterfúgio e uma forma de ficar apenas com as coisas boas que aconteceram por lá… Eu, que diversas vezes fui repreendida por ver o copo sempre meio vazio, naquela ocasião optei não apenas por vê-lo meio cheio, mas como criei um copo todo colorido e repleto de um líquido que não fosse amargo.

Porém entendo que chegou a hora de quebrar o falso copo, abrir o registro, recordar e finalmente deixar que os sentimentos emerjam. Continuo sendo forte, independente e posso aguentar muita coisa, mas isso não quer dizer que eu tenha sempre de engolir o choro, que não possa assumir os momentos de fragilidade ou pedir ajuda quando achar que preciso. A ajuda chega, mesmo que não venha do lado que parecia mais óbvio.

Sei que existem histórias de verdadeira receptividade e doação, mas na minha foi inserido um romance que não existiu. Eu inseri um romance que não existiu. Eu me calei. Mas sou eu mesma quem está retomando essa voz esquecida. Sou eu que todos os dias quebro barreiras para não mais me calar, sou eu que dou mais energia à minha voz cada vez que me olho, me elogio, me deixo ser elogiada, me supero, me dou espaço para fazer as coisas de que eu gosto e me dão prazer. Voltei a gostar do tom da minha voz porque, finalmente, a voz que sai é a minha.