I

Um lugar cheio, aparentava ser uma rodoviária ou um metrô, não definido ao certo, com infinitos rostos e cores ao redor. Enxergava com dificuldade, sem conseguir precisar se o que tanto lhe pesava nos olhos era o sono acumulado de tantas noites mal dormidas ou o vinho que havia tomado algumas horas antes. Eram sempre aqueles mesmo vazios tão comuns, os mesmos de sempre, nada de diferente, nada havia acontecido nos últimos anos. Nem mesmo comidas diferentes ela havia experimentado, e até então isso nunca havia causado incômodo. Até então.

- Cuidado, garoto! Você quase derrubou minha bolsa.
- Calma.
- Porra.
- Tudo bem, desculpa.
- Tá, tudo bem.
- Tudo bem.
- Tudo bem.

(silêncio)

- Como chama?
- Anne, mas me chamam de An mesmo, fica menor. E você?
- Augusto.
- Bonito.
- Uma homenagem, eu acho.
- Bonito.
- Todos poderiam ver algumas coisas por este lado. — Passou a mão pelo nariz, mas só pela necessidade de fazer um movimento qualquer. Só para não ficar impresso na história daquele momento um instante vazio.
- É.

(silêncio)

- Gosto muito dessa cidade.
- Eu também.
- Esta grandeza me assusta às vezes.
- Me encanta.
- Mora muito longe daqui?
- Não, moro logo ali, desço na República.
- Sempre quis morar no Centro.
- E você, mora longe?
- Não moro, tô sempre por aí.
- Como alguém está sempre “por aí”? Onde dorme?
- Durmo onde posso. Há algum tempo saí de casa.
- Quando eu era nova vivia pensando em como devia ser sentir essa liberdade de morar em qualquer lugar, longe das obrigações.
- Mas eu tenho obrigações. Comigo mesmo, mas tenho.
- Desculpe, não foi isso que quis dizer.
- Tudo bem. — O silêncio pesou.
- Olha só, não quero parecer enxerida, afinal nem te conheço, mas… onde vai dormir hoje?
- Não sei ainda.

(silêncio)

- Tchau, garoto, vou descer. Se cuida.
- Posso passar a noite na sua casa?

II

- Você mora sozinha?
- Sim.
- Você não parece uma mulher sozinha, nunca houve ninguém com você? Por que não há fotos aqui?
- Não sei, não gosto de fotos. Me sinto na companhia de papeis, prefiro mesmo as pessoas. Se não podem estar aqui, não estão. Você dorme nesse sofá aqui. Sente frio?
- Não. E desculpe a intromissão.
- Tudo bem. — E a esta altura já haviam se entreolhado muitas vezes com o canto do olho, com algumas pequenas dúvidas pairando na mente mas sem necessidade alguma de resposta.
- Acho que amanhã chove.
- É. (acende um cigarro) Quer?
- Se não for incômodo. Meu maço acabou ainda há pouco.

Os dois sentaram-se nas duas poltronas que haviam na sala. Uma de frente para a outra, um de frente para o outro. O que ele estaria pensando neste momento? Tem um estranho dentro da minha casa, ela pensou, e tentou sentir medo dele, mas não conseguiu. Reservou aquele cigarro especialmente para reparar naquele estranho, pela primeira vez. Assim, por nada, não precisava de um motivo, apenas queria. Augusto. Tinha cara de Augusto. E se não fosse este seu nome? No começou estava curiosa, mas agora não queria mais saber o verdadeiro nome — se é que havia um. Gostava de pensar nele como Augusto, apenas como Augusto, e não mais um estranho, ou um garoto qualquer, até porque, ainda que houvesse aquele cheiro de coisa nova e estranha no ar, sentia que era bom. É sempre bom ter com quem conversar. Há tantos dias não conversava com ninguém, sentiu medo de não se lembrar mais como é, de não sabre encaixar as palavras nos lugares certos. Tinha umas mãos magras muito bonitas e de dedos finos, daqueles que parecem ter um coração batendo dentro. Umas unhas brutas de homem, mal cortadas, um pouco sujas, afinal Augusto estava sempre na rua, por aí. “Sol é de graça, garoto”, brincou mentalmente consigo mesma sem conseguir repetir alto a sua gracinha, talvez por medo de quebrar aquele silencio quase tocável, talvez por medo de parecer sem graça, talvez por querer admirar a beleza pura de Augusto sem o incômodo das palavras. E se percebeu com um leve sorriso no rosto.

Augusto era um daqueles tipos em que se descansa as vistas em cima, uma figura de personagem. O tempo parecia correr mais devagar quando ele se movia, mesmo que fosse qualquer movimento leve, desses corriqueiros como levar a mão até a boca quando boceja. Era gostoso de se admirar, era fácil. E, de repente, de tanto olhar, sentiu que a ausência de palavras se tornava um pouco cortante — talvez ela tivesse olhado demais — e sentiu-se pior ainda por não saber como quebrar aquele silêncio duro. Foi então que no mesmo instante em que pensou, Augusto, como se lesse seus pensamentos, se levantou num pulo:

- Aonde fica o banheiro?

E quase imperceptivelmente, naquele pedido tão simples, sentiu Augusto tão frágil que subitamente uma vontade, estranha e inédita, de proteger aquele garoto tomou conta de seu peito e ela pensou, rapidamente, que ele deveria dormir na cama. Não sabia bem por que, e achou até um pouco ridículo pensar que deixá-lo dormir na cama seria uma forma de protegê-lo, seja lá do que quer que fosse. Mas era mais forte, o impulso, a vontade; e aquela falta de por quê’s era tão grande que riu. Riu. Pensou que um dia deveria dizer à ele que naquele momento ele era a sua pessoa preferida no mundo — no mundo todo — e ela diria. Sim, devo dizer, disse baixinho, sem querer, deixando escapar dos lábios num sopro aquele quase segredo. E não dormiria no sofá. Aquele desejo tão grande e tão repentino de querer que Augusto dormisse confortavelmente na cama era uma bondade sufocante, um ataque de ternura que ela nunca havia sentido antes, mas Augusto… não, não pensarei em nada, é apenas um garoto.

- Olha só, garoto, eu fico no sofá hoje. Você pode dormir na cama.
- O que? Por quê? Por favor, não se incomode, eu fico com o sofá. Dormiria até no chão.
- Está muito quente hoje. Eu fico no sofá. Faço questão.
- Anne…
- Sem mais. Boa noite!
- Se é assim, boa noite. (pausa) Anne, Anne. Gosto do seu nome.

Pegou seu travesseiro, colocou o pijama e foi para o sofá, mas, por algum motivo, Anne não sentia sono. Ficou deitada, olhando para o teto e fumando enquanto pensava na sutileza do tom da voz daquele rapaz; era um rapaz tão humano (com suas mãos bonitas e brancas), era um rapaz extremamente humano (com seu corpo magro tão cheio de ossos e unhas brutas), era a pessoa mais humana que já tinha visto. Humanos são bichos, repetiu devagar, e tentou encontrar em Augusto o que o deixava bicho, o que fazia dele tão humano. Os suores, a fala simples e doce, as fomes, as necessidades, os sonos, os frios, os arrepios, os desejos. Sim, tudo isso cabia dentro dele e era quase estranho perceber tanta coisa dentro de uma vida que ela mal conhecia, mas que apenas por ser uma vida já merecia seu respeito, porque eram iguais. Felizmente ou não eram iguais, porque eram gente, bicho. E então, ao descobrir que era igual a ele, pensou nos choros, nos risos, nas tristezas, nas alegrias, nas quedas em que ninguém pensava. Se era igual a ela, quantos amores havia tido? Quantas vezes havia desejado a morte, aquele garoto? Uma súbita e estranha curiosidade nova encheu-lhe o peito e quis saber. Amor perdido ainda é amor, amor esquecido ainda é amor, amor triste também é amor. Deve ser um rapaz cheio de amores, refletiu, um em cada lugar aonde vai, tinha cara disso, e ela refletiu, com vergonha de si, que ela mesma poderia ser um desses. Não se importava em ser mais um desses, mas o importante era que fosse um, e isto seria tudo; poderia ser até que só voltasse nas sextas-feiras ou sábados, mas saberia viver aguardando a volta. Gostava de pensar em seus amores passados como ainda amores, e não como ex-amores, e não como peças perdidas do pequeno quebra-cabeça que completava a parte que já havia acabado da sua vida. Talvez ele fosse igual.

Era uma forma de viver, e de nunca estar sozinha. Lembranças são companhias. Esperar por um amor assim era uma forma de viver, e de ser sozinha. Queria apenas as lembranças.

Uma sombra interrompeu seus pensamentos.

- Que susto, menino!
- Desculpe, devia ter batido.
- Tudo bem.
- Você costuma chamar todos de menino ou garoto?
- Sim, costume meu, mas estava pensando no seu nome agora mesmo.
- Estava?
- Sim. — Respondeu rápido, ao mesmo tempo em que pensava que confessar que estava pensando em seu nome era quase confessar que estava pensando nele, e essas coisas não se dizem. Não, não se dizem.
- Não estou acostumado com as pessoas pensando em mim ou sobre meu nome, mas obrigada.
- Não precisa agradecer, ninguém pede essas coisas.
- É.
- É.
- Pode voltar a dormir, eu só vim aqui pra pedir, se não for abuso, mais um cigarro. Não consigo dormir.
- Pega ali em cima da mesinha. Não estava dormindo, também não consegui, deve ser este calor. Acho vou fazer um café.
- Se fizer um café agora, não vai dormir mais.
- Você quer?
- Sim.

III

Pronto, um café para dois. Uma noite, um maço de cigarros e um café para dois. Quase dois estranhos, mas apenas quase, porque a essa altura era como se se conhecessem fundo um ao outro, era ao menos o que sentiam. Os dois, sem saberem. Essas sensações parecem sempre estar vagando pelas ruas, sem dono, largadas ao léu, apenas procurando a quem tomar, e agora haviam tomado Anne. Um dia, dois, uma semana, um mês talvez. Essas sensações que aparecem nas horas aparentemente mais inapropriadas. Essa intimidade de olhar, saber, sentir o outro sem permissão. Que permissão tinha ela de olhar, saber ou sentir aquele garoto? E agora parecia que ela havia olhado para ele durante sua vida inteira, tamanha familiaridade com aquele corpo pequenino. Pensava no corpo, mas não era só com o pensar — esse pensar despretensioso e livre de qualquer rédea — pensava com pena. Pensava com pena que pobre daquele menino, e não só dele, mas de todas as pessoas, inclusive ela, que são obrigadas a viver dentro de corpos tão pequenos. Todo corpo é pequeno. O corpo era tão cru perto do que se sentia naquele instante, ou antes dele, ou o que viria a ser sentido depois; os sentimentos são tão mais evoluídos que o corpo que olhar para ele era algo que o fazia parecer, aos olhos dela, digno de dó. Os ossos aparentes eram assim tão simples que chegavam a ser terríveis, mesquinhos. Causava até certa cólera, uma vontade de rasgar aquela pele e libertar todos aqueles sentimentos monstruosos de dentro daquele limite escroto de músculos e sangue. Queria dizer que sentia pena dele por ele ser gente; por olhar, saber e sentir ele, que sentia um impulso cruel de lhe rasgar todo para que fosse livre — mas não podia; ele não entenderia. Ninguém entenderia.

Onde se deve tocar para tirar de dentro de alguém um pouco de amor? Perguntou calma para qualquer coisa que pensava ser ela mesma, mas não sabia exatamente por que tinha se dado ao trabalho de se perguntar aquilo, porque sempre soube que essa era uma pergunta sem resposta. Uma busca de todos durante toda a vida, ninguém era capaz de viver sem procurar amor, mesmo aqueles que procuram tanto por algo e não sabem o que é.

- “É melhor viver do que ser feliz”, ela disse sem querer.
- “Quem não quiser sofrer que se isole.”
- Pessoa.
- Vinícius.
- Poesia.
- Verdade.

Não era só o que dizia que era verdade, mas todo ele. Augusto se distanciou e debruçou na janela, examinou a altura mas não disse nada. Ele deve ter achado alto, aqui é mesmo alto, as coisas são mesmo altas por aqui, tudo flutua aqui dentro. Numa liberdade de pensamento imperdoável tentou cantar mentalmente uma música, como uma trilha sonora, porque era musical acompanhar os movimentos daquele menino, mas não conseguiu; não sabia em que música pensar, não sabia qual seria o ritmo dele, qual era o tom. Uma música estranha, ela tentou de novo imaginar, e fracassou. Ele era a personificação de uma música sem som, silêncio encobrindo barulho. E acendeu um cigarro.

Cada minuto era um ato diferente, um teatro real, quase mágico. O som do fósforo, a cidade escura com pequenas luzinhas amareladas ao fundo, a janela meio cinza de metal, a cozinha branca, o cheiro de novo, de alguém novo. A fumaça com cor de fumaça, cheiro de fumaça, textura de fumaça. Fumaça tem textura? Um devaneio à toa. Ela assistia àquela cena sem saber se era bonita ou não — não era beleza o que a atraia, era tristeza. Antes de se levantar para dizer algo que os lábios pareciam estar chocando há alguns minutos, abaixou a cabeça e olhou para o chão, assim como os santos nas igrejas. Um olhar de remorso, sem remorso. Disse uma coisa qualquer e pegou a caneca. Não, ela não gostava de xícaras, canecas são tão bonitas, não são? São, eu tenho uma coleção delas, deixei em casa, ele respondeu. Não fazia idéia de qual seria o próximo passo, mas sentiu que estava pronta a dá-lo; sentiu que estava pronta sem saber que sentia, essas prontidões naturais, como vida. Você não sabe que está pronto para viver até sentir o sangue correndo nas veias, e ela sentiu naquela hora uma espécie de sangue correndo nas veias. Sangue invisível, veias invisíveis. Augusto levantou quieto e foi de novo até a janela.

- O céu é tão grande, né?
- É. — Ela debruçou na janela ao seu lado.
- Deus teve trabalho pra fazer tudo isso.
- Eu não acredito em Deus.
- Nem eu.

Mas Deus deve existir. Deus deve existir porque é preciso alguém para culpar. E se nos culpássemos sempre? Vamos ficar loucos, meu Deus, todos nós. E as coisas boas, daquelas que são tão boas que mal acreditamos que acontecem, vem da onde? A vida não parece ser tão boa.

Deus deve existir.

IV

Por alguns dias ainda pensou que aquele menino não passava de um grande silêncio. Uma paz, forjada ou não, para todo barulho que havia sido a sua vida até aqueles dias. E se ele fosse um presente? Da onde saiu? Por que chegara até ali? Era um poço de dúvidas, um poço de certezas, um poço de alegrias abafadas. Durante muitos dias não fizeram nada além de respirar ou um pouco mais, não viveram, apenas conviveram. Palavras são muito chatas, não é? Eu também acho, ela sempre respondia afirmando, não ousou discordar nenhuma vez de toda razão que via gratuitamente estampada no rosto daquele ser. Cada palavra era uma ordem ao conhecimento, ele sempre parecia estar certo.

- Eu acho que todo mundo tem a obrigação de ser feliz quando quer. — Ele concluiu de repente.
- Eu acho que todo mundo tem a obrigação de ser triste quanto quer.
- Eu acho que tenho a obrigação de ser triste.
- E eu de ser feliz.

E era perdidas assim horas e horas. Não perdidas, porque nada fora perdido, e nem desperdiçadas, porque não havia desperdício nenhum, mas vividas. Viveu assim, entre palavras, suspiros, cafés na madrugada e cigarros durante um tempo que lhe parecia cada vez menor ao passo que se passava — talvez porque todo tempo parecia pouco, talvez porque para ela nunca chegasse a ser o suficiente. Pensava, principalmente, que essa falta de tudo que se chama de vida nunca fora tão boa.

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