Setembro Amarelo: Falar é a melhor opção.

Casos de suicídio aumentaram 60% nos últimos 45 anos. Está na hora de parar de trata -lo como um tabu, e sim como o problema de saúde publica que é.
Setembro amarelo é o nome da campanha da ABP a favor da prevenção de suicídios.

Anualmente são registrados mais de 1 milhão de suicídios no mundo. Dez mil deles no Brasil. No ranking do índice para cada 100 mil habitantes, Santa Catarina fica atrás apenas do Rio Grande do Sul. O estado também tem a capital com maior número de suicídios no país.

Abrindo setembro, que é o mês mundial da prevenção do suicídio a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) produziu a cartilha “Suicídio: Informando para Prevenir”. São 55 páginas para esclarecer, conscientizar e prevenir um ato que ainda tabu na sociedade. Faça o dowload da cartilha clicando aqui.

“Oferecer apoio sem desvalorizar ou minimizar o sofrimento”

A psicóloga Rachel Simões Vieira, especialista em saúde pública pela UFSC, tentar impor soluções e crenças à pessoa não ajuda.

Cotidiano: Quais são os “precedentes” para cometer suicídio? Apenas pessoas com problemas psiquiátricos cometem suicídio?

Rachel: Não. Pessoas com rede de apoio frágil ou sem ela (familiares, amigos), pessoas com doenças crônicas e graves, antecedentes na família ou de amigos próximos, nesse último caso por identificação. Ou então, transtornos psiquiátricos graves também são fatores de risco.

Cotidiano: Quais os sinais que um “potencial” suicida apresenta? Qual tipo de comportamento deve preocupar a família e amigos?

Rachel: Deve-se ficar atento à perda de interesse por atividades que anteriormente davam prazer, isolamento social ou até mesmo grande interesse em finalizar coisas, deixar tudo pronto. Mudanças muito significativas em hábitos, como a retração são sinais de alerta.

Cotidiano: Costumamos ouvir que “quem quer se matar, não avisa”. Isso é verdade? Porque?

Rachel: Depende. Há casos de pessoas com sofrimento muito intenso e por quererem uma saída avisam as pessoas próximas para que possam ajudar oferecendo uma alternativa, saída para esse sofrimento, para ter algum apoio. Nesse caso, o suicida costuma falar sobre sua vontade.

Cotidiano Além dos cuidados profissionais de psiquiatras e psicólogos, como a família e os amigos podem ajudar nestes casos?

Rachel: Se é um caso em que a pessoa está em risco muito grande ou se já teve tentativa(s) anterior(es) tem que estar sob vigilância 24 horas e recomenda-se tirar objetos que ofereçam risco. Se não for esse o caso, oferecer apoio sem desvalorizar ou minimizar o sofrimento e não tentar impor soluções e crenças à pessoa é a melhor opção.

Preconceitos, crendices e religiosidade ainda atrapalham a prevenção. Muitos ainda insistem em associar o suicídio à “fraqueza” ou “falta de Deus.”

-Larissa* conta sua história e como o acompanhamento médico adequado a ajudou.

Em 1994 o japonês Wataru Tsurumi lançava no mercado o livro “O manual completo do suicídio”, que com 198 páginas dá descrições explícitas e analisa uma variedade de métodos de suicídio, como o enforcamento, escolhido por Daiana Siqueira, uma jovem de vinte e sete anos de Ribeirão do Pinhal. Daiana tinha dois filhos e estava comemorando nas redes sociais uma gestação de 20 semanas de um menino que se chamaria Matheus. Daiana faz parte de uma estatística: a taxa de suicídio entre adolescentes e jovens aumentou 30%, o que representa uma média de 30 mortes por dia que poderia ser bem maior se a maior parte das tentativas não fossem mal sucedidas.

A história de Daiane se cruza com a de Larissa*, uma jovem mãe que felizmente não conseguiu realizar seu plano.

“O ano era 2012. Eu estava em uma fase difícil, com episódios sucessivos de “mala suerte”: demissão do trabalho que mais amei na vida por conta do encerramento das atividades da empresa; fim de um namoro conturbado que eu havia feito das tripas coração para que não afundasse; crises constantes de convívio na casa dos pais, de onde não conseguia sair; o imenso peso nas costas por educar o filho praticamente sozinha por conta de um pai ausente[..] Eu sabia que grande parte do meu sofrimento vinha da forte depressão que estava atravessando por conta do meu diagnóstico de Transtorno Afetivo Bipolar. Por revolta do tipo “que se foda mesmo”, eu havia parado com a medicação, por conta própria. Tudo estava ladeira abaixo. Foi quando numa noite, em meio a uma das milhares crises de choro, eu encontrei a “solução”: acabar com todo o sofrimento, simples assim [..] E foi com esse pensamento fixo que elaborei todo meu plano. Como eu não teria coragem de deixar meu filho para trás, eu decidi que ele iria comigo. Afinal ele era meu. Eu decidi pela sua vida quando optei por levar a gravidez adiante, então eu tenho direito de optar pela sua morte também. Assim, visualizei toda a nossa morte. A ideia era entrar no meu carro com ele em um motel, daria a ele e tomaria um Dramin ou coisa que o valha e, na garagem, morreríamos asfixiados pelo monóxido de carbono, de mãos dadas, abraçados, bem juntos um do outro. E assim foi decidido. E, te juro, foi a decisão mais difícil da minha vida.”

Apesar de assombrar a sociedade há tempos o suicídio é tratado como um tabu: filósofos, psicólogos, psiquiatras, e sociólogos tentam achar predisposições biológicas, supostos fatores climáticos. O motivo mais aceito entre cientistas é que a tendência suicida seria uma patologia hereditária associada a outros transtornos mentais. Mesmo assim, as religiões consideram como o maior pecado que pode se cometer e algumas pessoas chamam o suicida de fraco, covarde, egoísta. Esse julgamento foi ainda mais forte no caso de Daiane que por estar grávida foi tratada nas redes sociais como uma assassina cruel.

Larissa*, diferentemente de Daiane, não sabe porque, mas não conseguiu levar o plano adiante: “Não sei mesmo. Só sei que os dias foram passando e a ideia foi deixando de ser fixa.” Hoje, medicada, diz que a vida não está um “mar de rosas” mas os pensamentos suicidas diminuíram ou quase não existem. Para lidar com o diagnóstico ( Que pode causar ainda mais estresse que a doença) segue o conselho de seu médico: encara a bipolaridade como um diabetes. É como se o corpo não produzisse insulina suficiente, então precisa de medicamentos diários. No caso da depressão associada ou não com tendências suicidas, o corpo não produz quantidade corretas de serotonina.

Mas, diferentemente da eficácia comprovada da insulina, medicamentos psicotrópicos são como um tiro no escuro. São precisos meses para ajustar a droga a dosagem correta. Nesse meio tempo, pode haver pioras consideráveis: O polêmico documentário “Psiquiatria, a indústria da morte” , de 2006, levanta essa discussão: embora muitos casos tenham resultados positivos, não existe nenhum exame clínico que comprove a real eficácia desses medicamentos e os próprios psiquiatras confessam que o ajuste é feito por tentativa e erro. Mas isso não significa que será lento para todos, nem que não se deve procurar tratamento, mas sim que ele deve ter um acompanhamento responsável e cuidadoso . Embora não seja perfeito, o método costuma funcionar.

Porém, mesmo tento em mente que a tendência suicida deriva de uma patologia, Larissa*, a sobrevivente, termina afirmando que “continua respeitando os suicidas.” Citando Caetano Veloso, ela termina: “Cada um sabe a dor e a delicia de ser quem é.”