
As nossas pernas nuas se encaixavam de modo tortuoso e perfeito.
Tuas mãos sempre buscando o mais profundo de mim, sob lençóis de suspiros profundos e a vida latejando no espaço ínfimo entre nossos corpos.
Aquele quarto escuro alugado eu supunha meu reino. Sem súditos. Sem castelo.
Apenas um trono macio dividido. Nós .
E um dia eu vi — Como quem acorda de um sonho que não se julgava sonhado — que não vestia trajes reais.
Eram andrajos. Peças de pano brutos tão cinzas e tristes que pareciam chorar o dia em que foram tecidos .
Saí daquele quarto escuro e ouvi o barulho do bufar dos cavalos, cascos batendo impacientes de esperar a estrada .
Numa tina de água, com as mãos em pavor profundo de ter percebido a transfiguração do meu rosto, eu vi.
No espelho d’ água , eu vi.
Eu era o garoto da estrebaria.
Nunca em mim houve qualquer realeza, senão em sonhos.
Apenas um garoto de estrebaria, acordando antes do sol sair e desmaiando de cansaço na noite alta.
Escovando o pelo macio e a crina dos cavalos. Limpando baias . Carregando feno.
Olhando escondido atrás da árvore os verdadeiros Reis e Rainhas cavalgando, o vento ondulando sedas e veludos finos.
Um garoto de estrebaria cuja maior alegria foi roubar um torrão de açúcar na cozinha, enquanto a cozinheira espantava o gato.
E que a noite sorvia o caldo doce proibido, enquanto deitava na terra e mirava estrelas.