BLACK MONEY? WTF? O DINHEIRO NEGRO EM EVIDÊNCIA

Malokêarô
Jul 23, 2017 · 5 min read

No Brasil quase todo dinheiro é negro. No país existem 206 milhões de pessoas e 54% dessa população é negra. Não é preciso muito para afirmar com segurança que a maior parte dos trabalhadores é negra (pretos e pardos), sejam eles formais ou informais. Se por um lado a riqueza está concentrada onde a cor da pele é mais clara, por outro, são as pessoas negras que passam suas vidas e gerações produzindo tudo o que pode ser comercializado. A pessoa negra, há séculos, é a que gasta horas e energia própria para a criação, a manutenção e o crescimento do dinheiro, do lucro e da riqueza nacional que, como disse acima, está concentrada nas mãos das elites. Com isso posto, volto a reafirmar que todo, ou quase todo, dinheiro criado no país é negro.

Rio 2014, Revolta dos Garis.

Então o que é essa ‘novidade’ Black Money que todo mundo fala?

Black Money é o termo (mal) escolhido para dar nome à economia autônoma negra, que nos coloca com condições e princípios de priorizar a circulação de grana, oportunidades e serviços entre nós, pessoas negras, criando redes, comunidades, entidades e organizações que conseguem disputar de igual para igual os mercados com organizações, entidades, comunidades e redes tradicionalmente brancas e fechadas. Black Money significa circular o que sempre fizemos para outros, e o que estamos nos especializando em fazer, entre nós. Criando relações de troca, compra, venda e prestação de serviços priorizando a contratação, a venda, a compra e a prestação de serviços entre pessoas negras, pois aí o dinheiro gira dentro da comunidade preta (por mais estratificada que ela possa ser).

Quando dizem por aí sobre Black Money algumas pessoas tentam relacionar a ideia Estadounidense de negros super ricos capitalistas como Beyoncé e Kanye West com o empreendedorismo brasileiro movido pelas camadas populares. É preciso prestar mais atenção na nossa sociedade ao invés de querer transportar para cá outra realidade, até porque os poucos negros super ricos que existem no Brasil raramente se consideram negros e por isso dificilmente se enquadrariam como participantes de uma economia autônoma negra. Além disso a riqueza dos Estados Unidos chega em alguns negros — mega empresários, atletas e artistas — mas não em todos.

Zona Clássica de Empreendedorismo de São Paulo

O empreendedorismo aqui, entre os mais pobres e mais negros, acontece na maioria das vezes por necessidade e geralmente sem uma linha organizacional voltada para o desenvolvimento empresarial. Somente agora estamos dando o segundo passo de planejar lucro e não só empreender para complementar renda. E é este segundo passo que precisa ser bem feito, para que inclusive deixemos de usar nomes gringos e almejar suas realidades distorcidas.

Apesar de nós termos mais vínculos com África e a América Latina sempre tentamos nos espelhar e refletir em nossas vidas o que acreditamos ser a vivência Norte Americana. Neste sentido, a chamada Black Diplomacy estadounidense deu certo, já que com músicas, filmes e tendências pop quase todos os negros do mundo desejam ser negros norte americanos, nada muito distante do imperialismo. Então chamamos Dinheiro Negro de Black Money e partimos para táticas predadoras de nós próprios para ocupar todo e qualquer mercado, mesmo que de forma superficial. Isso não ajuda em nada a comunidade, mas transforma o mundo negro brasileiro numa cópia latina do mundo negro norteamericano, com algumas elites e centenas de pobres consumidores.

Então, se o dinheiro preto sempre existiu no Brasil como fazê-lo retornar para a comunidade negra ao invés de ser entregue dia após dia à elite branca? Como criar e fazer a manutenção de uma economia autônoma negra num país onde os processos de autodeclaração de cor e desenvolvimento econômico dos mais pobres ainda são iniciais e confusos?

Respostas são pensadas em coletivo, e acredito que algumas coisas cabem para complementarmos nossas reflexões.

> Princípios são importantes. São os fundamentos básicos de atuação e a partir deles tudo pode acontecer, desde que eles não sejam descumpridos. Quando pessoas negras com linhas ideológicas distintas conseguem fundar princípios comuns de desenvolvimento em comunidade as diferenças deixam de ser empasses e passam a ser complementos. Um Encontro Nacional (acessível), por exemplo (e fica a dica), onde as pessoas negras brasileiras pudessem determinar seus princípios fundamentais e planos para os próximos vinte anos seria um caminho positivo para a criação de uma comunidade efetiva.

> Confiabilidade e não personalismo são pontos chave, e sinto muito aos que preferem fazer do movimento negro um encontro de amigos. Acredito que seja necessário criar nossas redes pautadas pela confiabilidade na atuação das pessoas negras pelo que elas mostram saber fazer e pelos compromissos que elas assumem, isso independente da linha ideológica ou do post no facebook.

> Por fim, para o dinheiro negro retornar à comunidade negra precisamos correr o risco de apostar no longo prazo. O longo prazo é acreditar que com estudos e dedicação conseguimos aprimorar nossos trabalhos e torná-los úteis e atraentes para a população consumidora negra.

Aqui em 2017 o imediatismo nos dá ansiedade e a ansiedade pode nos fazer aceitar qualquer acordo que diz nos garantir boa grana e visibilidade (as vezes só visibilidade), por um tempo determinado pelo mercado, o que significa que quando o mercado tradicional se cansar de você sua presença será substituída por outra e em muitos dos casos sua imagem foi explorada, deu lucro, foi atraente mas não entregou nada útil para a população negra, pois esse não é o interesse do mercado tradicional.

O longo prazo faz o dinheiro negro voltar para os negros porque com ele se planeja inclusão, desenvolvimento e redistribuição. Se planeja autonomia econômica. A confiabilidade e o não personalismo garantem a diversidade de pessoas negras fazendo parte do processo de autonomia, não cria grupos restritos e evita o ponto destrutivo de qualquer atividade comunitária — levar questões técnicas e práticas para o pessoal. E os princípios, ah, os princípios comuns. Estes podem ser estabelecidos até com os dados do IBGE e do IPEA, por exemplo. Eles servem para que saibamos o que precisa ser resolvido e preservado, e com a tecnologia, tais princípios podem hoje ser estabelecidos por negros do país inteiro, em comum acordo, independente da classe social. Novamente, fica a dica.

Então, vejo como digna nossa ação para praticar a economia autônoma negra, mas espero que as pessoas negras brasileiras (e de todos os países que não são os Estados Unidos) se recusem a chamar isso de Black Money ou a utilizar táticas de mercado negro capitalista estadounidense aqui e com a crença de que isso promoverá o desenvolvimento de todos os negros, porque não é bem assim. Eu enfatizo o longo prazo, os estudos e os princípios, enfatizo também o não personalismo, pois somente com eles conseguimos seguir e crescer de forma não dependente e mais agregadora.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade