Essa tal AfroLiberdade

O que fazer com ela?

É uma questão para mulheres e homens negros, de todas as idades, mas, principalmente para nós, gente dos 17 aos 30 anos. Estamos nos empoderando, é. Algumas palavras o Google me ajudou a decifrar:

Empoderamento — Ação de se tornar poderoso, de passar a possuir poder, autoridade, domínio sobre: processo de empoderamento das classes desfavorecidas.

Passar a ter domínio sobre a sua própria vida; ser capaz de tomar decisões sobre o que lhe diz respeito: empoderamento das mulheres.

Ação ou efeito de empoderar, de obter poder.

Tudo isso no dicio.com… Daí eu já começo a achar a nossa vida digna de riso (para evitar o choro). Mas também tem essa:

Esquizofrenia — Doença que se caracteriza pela perda do contato com a realidade.

Designação comum a várias psicoses endógenas definidas por uma separação entre a ação e o pensamento, ocasionando a perda do contato com a realidade.

Estou tentando reunir em minha mente os legados que os movimentos negros anteriores deixaram para nós de forma subjetiva e ideológica. Os legados objetivos e concretos eu conheço, a Lei 10.639, o 20 de novembro, a PEC das domésticas, a Lei de Cotas e o Estatuto da Igualdade Racial e outras normas que, em maior ou menor nível vão e já estão fazendo, consideráveis estragos no cotidiano da elite branca brasileira (que se considera branca, mas que na Europa ou nos EUA está no fundo do chão se comparada a um WASP), mas o que me preocupa é o subjetivo, a ideologia. Me preocupa pois o que eu vejo é desanimador e, como eu sou otimista, não quero pensar sozinha sobre soluções que só podem ser coletivas.

Graças à maior abertura da participação negra na política durante o Governo Lula entramos nas universidades públicas e privadas (sim, nunca vou me esquecer), as classes mais pobres tiveram um aumento na renda per capta e puderam consumir, ou seja, as pessoas negras tiveram mais oportunidade de avançar na educação e comprar coisas. Aconteceu também uma mudança nas atitudes dos jovens e das mulheres, algo que já aconteceu no passado e volta maior agora que temos a internet: revolução sexual — o corpo é meu.

A internet ajudou no compartilhamento de ideias, na noção de que temos liberdade para decidir o que queremos no sentido do que vestir, o que falar e o que usar. Singelamente digo: nunca fomos tão adolescentes para aceitarmos isso como poder.

Há uma guerra em curso com subguerras constantes. Forças ocultas (ou nem tanto) atuam para que as pessoas negras continuem ignorantes e pobres, trabalhadoras e alienadas. Ao mesmo tempo nos sentimos muito empoderad@s quando mudamos o cabelo, compartilhamos fotos de nossas partes íntimas, compartilhamos nossos hábitos mais privados ou ostentamos tudo aquilo que não temos. Fazem os homens, fazem as mulheres. Não é uma ação 100% indigna de consideração. É que, primeiro precisamos analisar se estamos pensando em nossa auto-preservação e na criação de quais laços e, segundo é que: enquanto isso, há cortes na educação e a cada 23 minutos morre um.

Não é um pedido para que troquemos o lazer pelo protesto duro e pragmático — poderia até ser. É um pedido para que pensemos se estamos ou não dialogando com a realidade das mortes, das prisões políticas de negr@s e com o desemprego que está, inclusive, aí na sua porta. É um pedido para que pensemos se esse poder que temos hoje nos permite mudar leis e obter direitos.

Minha resposta sobre o legado foi que herdamos isso, a possibilidade de estudar, que, assim como o Afoxé, como canta o Gil, está quase para acabar; e a possibilidade de consumir, inclusive coisas nossas. Essa, a possibilidade de consumir, está longe de acabar.

Por último eu vou deixar a foto dessa moça e desse moço, pois hoje, como parte do nosso legado de poder, ambos (não só as mulheres) são hiperssexualizados até dentro das próprias comunidades, e seja hétero ou não, nos tornamos incapazes de dialogar para construir relações coesas, já que somos livres, não precisamos nos unir e podemos muito bem sobreviver sozinh@s e sem nenhum critério desde que haja festa e amigos do rolê.

Beijos

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.