Jovem Negra às Seis

Eram exatamente duas e vinte.

Na pausa do professor ela pegou a bolsa e deixou a sala, com aquele pequeno resultado do dia já conquistado, um oito numa apresentação deplorável e um sete na prova técnica. Aquela disciplina na Faculdade de Economia até que transcorria fácil, sem nenhuma provação senão a de se obrigar a socializar, entrando silenciosamente na bolha dos clãs Feanos, observando tal como sua veia antropológica mandava, com o intuito de se profissionalizar na auto-inserção em grupos estranhos, tudo objetivando o futuro.

Desde sempre inserida, desde sempre obrigada a se inserir. Lembrando seletivamente Darwin ela gravara em seu cérebro: adapte-se ou morra. Se apegando mais recentemente a Oxum e Bruce Lee ela tinha estampado em seu peito: seja água. Esse era o jeito de viver naquela idade dos 23, naquele tempo político e socialmente confuso, naquele século onde podia-se ser tudo e até se iludir de tudo, desde que tivesse dinheiro.

Caminhou até o ponto; duas, três tentativas no isqueiro. O ônibus, “Droga! Duas e meia”. Assim não chegaria às três no centro nunca, era a viagem da viagem ou a viagem do ônibus, correu. E no metrô folheou o livro, Peles negras, Máscaras brancas, já estava quase no fim; com ele aprendera algumas coisas e e confirmara outras que mesmo sem leitura já havia pensado. “É bem foda”, continuou pensando, lembrou-se da garota branca do Circular 1. Óculos de armação redonda, pele bem clara, cabelo preto, roupas feitas para parecerem simples mas cujo tipo do pano não deixava enganar. Quando se olharam nos olhos, entre uma movimentação e outra do transporte público, a branca sorriu como se fossem íntimas. Com uma aparente humilde solidariedade. Sorriu depois de ver a capa do Fanon. “Como se fossemos íntimas!”, pensou e riu. Pensou na Joice e na Liana, pensou na Barbara, pensou: “delas eu posso dizer que sou íntima, apesar de serem brancas. Nunca sorriram para mim devido à bibliografia que carrego. E se sorrissem não seriam mais íntimas. Ao se informarem do que eu me informo deveriam no mínimo cair na culpa e no remorso e me dar lugar preferencial para sentar…rs. Sorrir…poucas.”

Realmente passava por ela aquele conflito dicotômico brasileiro. Na verdade, não de todos os brasileiros, mas daqueles afetados pela política pública eugenista e pela violência portuguesa romantizada. Os de família mestiça. Os obrigados à inserção num mundo e ao afastamento de outro. Como estudante de políticas públicas era ainda mais duro descobrir que maldade tinha, além do componente humano bruto, técnica, método, elaboração e implementação. E a maldade passada estraçalhava qualquer confiança num futuro que não fosse eurocêntrico quando pautado na democracia racial. Mas ainda era jovem, como diziam. Ainda era jovem e de família média baixa. Nesse patamar já se nasce inserido, obrigado a lidar com a dicotomia, o duplo mundo: o sofrimento e a luxúria no mundo branco ajuntadas com a paz e o prazer do mundo preto. Mas em algum momento daria jeito, para ter menos raiva e mais compreensão, e assim produzir mais (nos moldes austeros da trabalhadora burguesa moderna) e até de forma mais engajada.

Desceu no metrô República às três da tarde. Nesse horário já não ia para o centro há tempos, somente este encontro extraordinário seria capaz de mobilizá-la. Devido às tristezas da primavera nublada e do término do romance passado era só seu quarto que lhe agradava. Naqueles dias haviam sido apenas Netflix, Youtube e livros, chuvas de ideias para lá, novos empreendimentos para cá, e a vontade de sair de casa só se fosse para outra casa, lhe conceder aqueles 2% de leveza, a das viagens na solidão da liberdade. Sinceramente, São Paulo estava fria antes do feriado, e isso não animava nenhuma filha do Sol. Contudo, ela estava lá.

— Ícaro!

— Olá! Como está?

Ouvir sotaques do nordeste a faziam feliz, embora nunca tivesse ido para outro lugar além de Porto Seguro numa viagem CVC com a família. Ícaro, amigo cibernético, vinha tentar a carreira musical na cidade e de quebra dar alguns conselhos para ela e outros jovens. Essas oportunidades a deixavam mais segura e satisfeita com a vida — eram pessoas negras mentoreando outras pessoas negras dentro do mundo dos brancos que, nesse contexto se transformava no mundo dos negros forçados à inserção. Logo, aquela dicotomia se diluía, ela já não se sentia sozinha, ela podia observar o caminho das pedras pelos olhos de quem já tinha atravessado uma jornada considerável. Ela queria isso para si e desejava ser isso para outros jovens. Seu desejo era chegar lá, naquele lugar que nem ela sabia qual era mas que garantia a sensação de paz e tranquilidade, a sensação de tarefa cumprida, a sensação de amor interior. Ela sabia que chegada e trajeto significavam a mesma coisa, por isso pegava leve, contendo a tensão racial diária, contendo a energia natural do mundo naquela era de aquário.

Cinco horas acabou a conversa. Fora da Olido fazia bastante frio. De um lado samba rock, do outro a porta da Trackers. Não parou em nenhum dos dois. O isqueiro pegou na segunda. Atravessou a Sé, entrou na livraria da Unesp. Tênis relativamente branco, calça de verde decorada, blusa de pano marrom, brincos dourados, twists. Na porta um segurança. Na seção de sociologia, nos primeiros minutos, surge uma vendedora atrás dela, colocando tal livro em tal lugar. Ao olhar para trás já não era um, eram dois seguranças, tentando disfarçadamente olhá-la e não olhar. Algumas coisas se sente no clima, outras se sente no olhar. Preferiu deixar aquilo de procurar algum livro lá.

Desceu até a rua de cima da Rua Direita, um sebo. “Não estou fazendo nada mesmo.” Era essa fala o gatilho para entrar em aventuras, descobrir novos lugares e gastar dinheiro… Meia hora, uma hora, páginas que se transformam em mundos. E, de repente lá: Aluízio Azevedo. E foram-se dois. Pareciam boas as histórias, uma, inclusive, já lida. Vida que segue.

Caminhou até o Anhangabaú antes que a chuva desabasse no centro. Subiu no ônibus, pensou em sentar no fundo como sempre e viajar para Pirituba perto da janela, mas agora só haviam janelas livres mais a frente, é isso, às vezes a vida escolhe o nosso lugar no ônibus. Pensou mais. Sem fone de ouvido ou celular as opções restantes eram pensar, ler um livro ou ouvir a conversa dos outros. Pensou e leu, pois conversa de ônibus não é tão interessante quanto conversa de trem.

“Amanhã vou fazer com mais empenho as coisas que já estou fazendo, vou desenvolver meus trabalhos, não vou desmarcar meus encontros… Embora pareça sedutor esse momento de casulo eu tenho que sempre sair da toca porque algumas gentes são consideráveis…Triste que não se pode ter tudo, mas comi um cookie e comprei dois bons livros.”

É.

Eram quase sete horas. As pessoas voltando do centro para a casa a faziam lembrar de seus tempos mais constante na vila, quando dava para sentir o cheiro da janta de cada vizinho logo pelas seis. Ela tinha medo do moderno porque ele se parecia muito frio, muito frio de relacionamento, muito frio de humanidade. Mas ela já estava inserida nele, na máquina produtiva de pouco sentido, o que mais iria fazer, voltar para o bairro da avó onde não há um minuto de silêncio? Se sentia culpada também, por gostar do conforto do moderno ao mesmo tempo em que odiava a sua liquidez.

Era essa a verdadeira divisão. Era esse o verdadeiro sofrimento. O de se inserir na modernidade ainda sentindo na pele o calor do mito ancestral. Mas retomo: ela ainda é jovem.