Segunda, eu e o mundo dos homens.

Tchau, Mãe! Eu disse. Sair de casa é sempre bom. Faz bem sair fora, porque você sabe, as vezes é preciso respirar sozinha, buscar inspiração num dia nublado sem precisar pegar trem e metrô, descer na República e ficar naquela biblioteca publicamente lotada. Nesses dias eu prefiro a Brito Broca de Pirituba, que reformou e agora, contrariando completamente o sistema do novo prefeito, está cheia de grafites do lado de fora, com letras maneiras logo na entrada dizendo que “ler é uma viagem”. E é mesmo. Espero que você esteja prestando atenção, de capacete, prestes a viajar comigo.

Eu queria pensar, escrever… Levei meu caderno. Mas também queria beber; 600 ml daquela cerveja do Zeca. Não me leve a mal, eu até me questiono sobre meus hábitos e a necessidade deles, sobre a sensação que as vezes chega… Aquela de secura na boca que água normal não acalma. Tento não pensar na morte, principalmente quando não estou bebendo e sim fumando… Recomendo pois que ninguém beba demais, nem faça nada demais, saiba bem por onde anda e divida sempre a vida em repartições quase que cronometradas para não acabar sendo usada ao invés de usar.

Camelei. Caminhei até achar um mercado que aceitasse minhas dezenas de moedas de vinte e cinco centavos. Desempregada é foda, no limbo entre o sonho de abrir o próprio negócio ou trabalhar para alguém. Pulei o mercadão, parei no mercadinho. Não tinha B, só tinha A, levei três pequenas; na biblioteca não se bebe, então eu fui escrever no centro esportivo da comunidade. Novamente a autocensura me veio: “vai beber no centro esportivo, sua safada?”, vou. Foda-se.

Confesso que eu poderia ter ido até o espaço onde jovens divertidos jogavam vôlei em roda e outros tantos conversavam em pequenos grupinhos miscigenados. Mas a arquibancada na frente do campinho me pareceu tão acolhedora… Tinha um tio estranho sentado na parte superior esquerda e um bolinho de oito ou nove meninos quase todos pretos debaixo da única parte coberta existente. Por ali era o meu lugar. Não por classe, nem por raça, muito menos por estilo de quebrada, era só porque eu senti, e do fundo do meu coração, que lá seria individualmente mais confortável.

— Colega, que horas são?

Me perguntou um rapaz, se destacando do grupo que estava na parte coberta. Eu tinha acabado de subir a arquibancada, até o último lugar, um pouco distante do tio, quase que no meio campo entre ele e os meninos. Não quis tirar meu celular pra fora. Sinto muito. Sou daqui, sei o que é racismo, mas também não sou nenhuma zé mané.

— Acho que são quatro horas. Eu respondi.

— Não, ainda são três e pouco. São três e quarenta.

Quem disse foi outro rapaz, dessa vez de bike, bone preto, um tantinho mais escuro do que o primeiro. Ele falou, guardou o celular e seguiu, dando a volta no campo cercado.

Enquando ele bicicletava, do outro lado descia um carro da guarda metropolitana. Todo mundo viu. Nessas o primeiro rapaz que falou comigo veio, se distanciando dos outros que estavam na área com cobertura:

— Posso sentar aqui com você?

— Pode.

Troquei minha bolsa de lado. Ofereci uma cerveja A.

— Bebe aí.

— Obrigada. Qual é seu nome?

— *****, e o seu?

— Daora, quase que o nome do meu irmão, só que você é mina. O meu é *******. O que você tá fazendo?

— Vim aqui escrever, estudar. Eu ia na biblioteca, mas lá não pode beber (risadas).

— HAHAHA é osso. Mas estuda mesmo. Eu tô aqui desde o meio dia esperando um amigo chegar, ele vai terminar minha tatuagem, disse que ia chegar quatro horas.

Estão vendo? Conversa vai, conversa vem, assim se formam colegagens. Foram poucos segundos ou minutos. O rapaz da bike já tinha atravessado o campinho e sido pego pelos olhos da guarda. Os policias pararam ele. Depois fui saber que não podia circular de bicicleta por ali, a segurança oficial me contou. Eu e ******* ficamos observando. Eram três guardas. Devo lembrar que não sou nenhuma zé mané e aí geral já sabe que pm e gcm, agora que a segunda anda armada com mais poder, colocam nos olhos e no corpo do cidadão a mesma truculência.

Fizeram ele descer da bike, pegaram a garrafa que ele segurava e tacaram no chão. Tacaram mesmo, jogar implica mais calma. Ele se prontificou, encostou-se na mureta e colocou os dois braços atrás da cabeça. Tacaram também seu boné no chão. O segundo gpm, com a violência de um pm, chutou as pernas dele, uma para cada lado, e começou a revistá-lo.

— Caralho minha bike.

— É sua?

— É minha. Nunca mais empresto minha bike. E pior, foi minha mãe quem comprou. Ela me disse que se eu perder essa bicicleta ela me mata…

Ele sentiu que tinha se fodido, afinal, a bicicleta era novíssima e bem bonita. Eu olhei para ele com um olhar de “é mesmo, você se fodeu”, e dei risada sem deboche, foi risada de quem compreendia.

— Olha. Disse ele. Posso deixar esse celular aqui com você? Finge que é seu, coloca dentro da sua calça… É que eu achei no samba de ontem e vou usá-lo como pagamento pelas minhas tatuagens de hoje… Ontem a polícia chegou no samba tacando gás de pimenta e todo mundo saiu correndo, quando eu voltei tinha uma bolsa, uma blusa e um celular no chão.

— Quem perdeu perdeu. Respondi.

— Não é!? Agora esses metropolitana tão aqui, deixa ele do seu lado. Eu vim aqui mesmo para desbaratinar, ficar perto de você porque você é mina, lá tá cheio de homem. Disse olhando para a parte coberta da arquibancada. Quando é mina eles pensam que somos um casal suave.

Eu não sou zé mané. Digo isso pela terceira vez. Como complemento, não sou otária de enfiar nas calças um celular que não é meu, ainda mais um da maçãzinha. Ficou de lado, junto dele. Continuamos conversando, assistindo da arquibancada o jogo: jovem de 17 anos X guarda municipal metropolitana. No primeiro time um menino, uma bike e uma garrafa vazia; do lado adversário três policiais, três armas, uma prancheta e toda a autoridade governamental. Nem o meu Corinthians ganharia.

— Esses polícia é foda.

— Verme da porra.

— Não precisava fazer isso…

Um dos gcm gritava na orelha do rapaz parado. Gritava qualquer coisa que, acredito eu, não precisava ser dita aos berros. Do alto dos bancos nós víamos aquela cena. Alguém, atrás de nós, do lado de fora do centro esportivo também via, também gritava, e não era só um. Eram outros jovens.

“SEUS AZULZINHO DO CARALHO! FILHOS DA PUTA!!!!”

Era tudo o que a gente precisava, atenção dos polícia pro nosso lado.

— E ainda ficam esses ramelão gritando.

— É que eles estão do lado de fora. Se estivessem aqui dentro não tinha um piu. Respondi.

— É mesmo. Você tem quantos anos?

— 23. E você?

— Eu tenho dezoito. Sabe, eles já me pegaram uma vez. E foi na armação… Na verdade não foi total armação. Eu tava com lança, mas só o lança não me faz ser fichado. Eu fui pra fundação casa, dai quando eu vi tinha na minha lista maconha, eu não tava com maconha.Botaram na minha conta. Eles são tudo cuzão. Dai eu tive que ficar lá, eu era menor.

Eu olhei para ele. Nada tinha realmente mudado depois dessa informação. Só fiquei surpresa, ele só tinha dezoito anos. Eu já tive dezoito anos, mas isso foi em 2011…

Do lado de fora da minha mente a gcm continuava. Não tinha nada com ele, então o rapaz foi liberado. Parou a bike cinco metros depois da guarda e foi colocar água na garrafa. Não sei qual foi a fita. Aparentemente os guardas não estavam satisfeitos. Um mais alterado colou no menino, gritou mais, não esperou ele completar a água na garrafa, mandou ele se levantar e daí grudou a mão toda no pescoço dele, sacudindo a cabeça do jovem enquanto a sua própria cabeça gritava mais outras coisas que para mim já não tinham relevância. Quem esgana outra pessoa só porque tá com uma arma na cintura e dois comparças do lado não tem nada de interessante para dizer.

Largou o pescoço como se larga qualquer coisa. O rapaz era alto mas estava cabisbaixo, meio de coluna encurvada. A humilhação faz a gente perder um pouco da moral interna. Saiu carregando a bicicleta de um lado e a garrafa do outro. Voltando para o nosso lado do campo. Lá fora os sinceros sem noção continuavam:

“SEUS VERME DO CARALHO!!!”

Então, a turma de rapazes da parte coberta se levantou, foi até a grade que fechava o centro e disse “ou, não arrasta não, jão. Não tão vendo o que tá acontecendo?”. Eu estava vendo. Naquelas. Via também minha situação. Mina, com caderno na mão, passando pano para um rapaz que tinha acabado de conhecer e que chegou com um papo de ter achado um celular no samba. Suave. Se os guarda colar aqui eu nem sei quem é quem, estou estudando e meu pai manja de direito. É. O grande problema do pobre é a falta de amigos de classe alta, falta de informação e falta de um diploma. Quando a gente tem essas coisas, são poucas as polícias que ignoram totalmente o nosso discurso…

Se eu continuar narrando que a gcm seguiu o rapaz até a nossa área, levou ele para os fundos do centro e de lá ninguém ficou sabendo o que aconteceu vocês levam a sério? O ******* bizoiou de cima do muro o que acontecia, eu disse “volta pra cá!”, como se eu realmente fosse uma namorada preocupada. Óbvio, para o fundo partiram apenas dois gcm, o terceiro continuava escorado na porta do carro, do outro lado, olhando pra gente. Fiquei comovida mas não queria ser a próxima. E aí eles vieram, com a mão na cintura. O menino da bicicleta já não era o foco. Todo mundo da parte coberta foi enquadrado, e os guardas passaram por mim como se eu não existisse. O rapaz do meu lado desceu, levantou a camisa e seguiu andando. O tio nem estava mais lá. Me pergunto agora por que eu ainda estava.

Como acabou? Era três da tarde. Não sei o código do governo, mas de tempo em tempo a ronda chega no centro esportivo, o diretor assina um papel e eles vão embora. Tanta gente agredida para três pessoas mostrarem atividade. Foi isso.

Desci a arquibancada, afinal, como ia estudar naquele lugar? Eu devia ter ficado na biblioteca do outro lado da rua, pensei. Fui rumando com desgosto na cabeça. O ******* volta e eu entrego o celular para ele. Me perguntou se eu não queria ficar mais, respondi: “não, vou estudar que tô precisando”. Foi um encontro fortuito que propiciou isso aqui. Só isso de bom. Escritos.

Os seguranças do centro comentaram o caso. A gcm já tinha assinado o papel com o diretor e saido fora. Subi a rampa, saí também. Na esquina eu encontro o menino bicicleteiro, bonitinho como meu primo:

— Você viu o que eles fizeram comigo, morena?

Eu não sou morena, sou preta. Ele também. Mas não falei sobre raça.

— Eu vi. Eles te bateram lá no fundo?

— Não porque eu sai correndo. Mas vim devolver a bike.

— Não fica na pilha não, fica suave. Eles vão encontrar o deles.

Eu segurei no braço dele, no sentido de apoio emocional. Então segui…

— Ei! Eu não vou poder conversar com você? Disse ele me chamando.

Eu: não tava conversando?

— Passa seu whats, morena?

Então o garoto deu um sorrisinho. Eu ri. É foda.

Não há violência que não se supere rapidamente num mundo onde as violências são cavalares e por segundo. Acabou de ser esganado e, como se fosse fato diário, não focou no ocorrido, só pediu meu telefone. Queria eu ter essa potência…

Queria?

Não importa agora.

Passei meu número, afinal, é só um número.

Espero que ele me chame. Porque é bom conversar.

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