Vanguarda líquida | Peles pretas, máscaras importadas.

Se o Brasil é o “país do futuro”, então nós, pretos sobreviventes do etnocídio (destruição da identidade racial) promovido pelos governos branco-brasileiros somos os pretos do futuro. Como o título dado ao Brasil é o do país de um futuro que não sabemos qual, logo, nós também somos pretos de um futuro que desconhecemos.

Alguns me pedem para usar minha cosmovisão, e considerar todos os pretos e pretas do mundo, bem como suas práticas culturais, como irmãs e irmãos diaspóricos (africanos fora da África), mas essas mesmas pessoas não conseguem considerar seus vizinhos pretos que preferem um sertanejo como irmãos da diáspora, estes, para aqueles, são somente sementes da alienação nacional.

Subindo mais o nível, partindo para a elite cultural preta do futuro, é como observar uma “maquete de privilégios pretos”, onde vivemos em ilhas de destaque, onde somos senhores e senhoras de nossa própria cultura, empoderadamente periféricos, mesmo que já não tenhamos nenhum traço da periferia além do pouco dinheiro e da cor da pele. Muitas vezes não conseguimos admitir que subimos um degrau de classe e agora passamos a determinar padrões— embora a aceitação da própria realidade seja o melhor caminho para o desenvolvimento.

Hoje nós vemos dezenas de grupos, coletivos, bondes empreendedores pretos fazendo, emergindo e olha, não poderia ser melhor. Mentira, poderia.

Por fora, bela viola. No centro tudo bonito. Bonito até na periferia também. Mas o bolorento está nas relações interpessoais e no que é legado àqueles não tão “ricos de capital cultural”.

Juntando o indivíduo e o coletivo o que mais temos são máscaras, gente indiscutivelmente forte, que sofre todas as horas do dia, menos nas aparições públicas entre pessoas que são consideradas membras “da comunidade”. Ou seja, isolados em nossos cantos estamos depressivos mas de frente para nossos “irmãos diaspóricos” somos fortes e, se não felizes, duros e confiantes. O tabu da conversa sentimental e emocional é grande. Espalhamos a sexualidade, a “boa vida” e os direitos sexuais mas não falamos de saúde física ou emocional. Há um bloqueio e uma criação falsa de bem estar. Quantas pessoas que admitiam vícios ou vontade de suicídio no inbox na quinta não estavam bêbadas e sorridentes na festa da sexta?

Para além do tabu em tratar questões sentimentais e emocionais nós nos isolamos individualmente e em coletivo defendendo pontos de vista sem nenhuma concessão. Não gostamos de conflitos. Se uma pessoa não concorda com a nossa forma de combater o racismo nós até discutimos com ela, mas para defender nossas ideias com unhas e dentes, nunca aptos a considerar os pontos positivos do outro modelo. Estamos aqui, fechados em caixas. Quando, na verdade: é o diálogo sincero e a abertura para aceitar novas ideias e formas de atuação que ajudam no desenvolvimento coletivo. O conflito faz parte disso, o conflito positivo.

Então, estamos aqui, líquidos, com pouca consistência emocional, mas duros e duras na queda quando se trata de defender nossas ideias e métodos… Deve ser resquício da escravidão também, tanto tempo sem poder falar por si que quando se tem uma ideia concessão pode aparentar ser palavra inimiga, mesmo que de pret@ para pret@. Ou, tanto tempo sem poder demonstrar sentimentos verdadeiros que criamos um falso coletivo para conseguimos sorrir entre os intervalos do nosso sofrimento sombrio psicológico.

Isso ainda nos faz perder grandes oportunidades de construção, de nos tornarmos pretos do futuro guiando o país do futuro.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.