O amor nos tempos de golpe

ph: Sajjad Saju

Estar diante de um momento histórico catastrófico certamente provoca muitas reverberações internas. Revolta, perplexidade, medo, desespero. Com o senso de justiça ameaçado por absurdos e os nervos em frangalhos, a primeira reação é lutar ou fugir. A esperança se torna um fiapo de tecido esgarçado pendurado em uma haste, na qual nos agarramos. Fitamos o horizonte e vemos o pó do levante sendo dissipado pelos tanques. Só vislumbramos a poeira residual de um cenário no qual há pouco acreditávamos e que parece completamente destruído agora. A justiça, o combate à fome e à miséria, a defesa de direitos fundamentais e das minorias, a luta pela igualdade, tudo isso fica emaciado por essa nuvem grotesca. Há um momento breve em que ficamos sem força quase ao ponto da desistência. Para que lutar pelo bem, se o mal sempre prevalece?

O que nos enfraquece, no âmbito coletivo e mais ainda, individual, é precisamente esta dualidade, esse maniqueísmo. A competição, o rito da luta com bandeiras hasteadas, o conceito de que para um vencer o outro tem de perder, para um possuir o outro tem de ser despossuído, para um prosperar o outro tem de padecer miseravelmente numa escravidão peremptória. O ego. É ele responsável por este tipo de separação. O ego, em sua pequenez, quer escravizar a consciência, em sua grandiosidade. Isso não é possível, posto que são manifestações de uma única coisa. E cada um desempenhando seu papel no mundo dos sentidos, dessa matéria-espírito de que somos constituídos. O ego quer convencer de que existe um bem e um mal. A consciência clareia que tudo é parte de um todo. E que o mundo está dentro de cada um de nós.

Cada agente político ou social possui um papel neste enredo de nossa coletividade. Cada um acredita piamente em seus valores (ou total ausência deles). Pergunte a um psicopata assassino se ele considera erradas suas ações… ele sequer entenderá sua pergunta. Ele lhe dirigirá um longo olhar perscrutador (que certamente fará você tremer diante de sua frieza) e lhe dirá que não.

“O que é, então, um ser humano? É o ser que sempre decide o que ele é. É o ser que inventou as câmaras de gás; mas é também aquele ser que entrou nas câmaras de gás, ereto, com uma oração nos lábios.” — disse Vicktor Frankl.

O que leva uma pessoa que foi torturada, persistir? O que motiva pessoas perseguidas e ameaçadas a não se calarem? O que mantém alguém cuja vida é ameaçada lutando pela verdade? Todos eles sabem que este é seu papel na grande peça e por isso estão lá, desempenhando o melhor que podem. O show tem que continuar, a vida tem de persistir, a verdade deve resistir. Nós não podemos desistir. Afinal, “aquilo que emite luz deve suportar o calor”.

Aprendemos com Frankl que “Quando a circunstância é boa, devemos desfrutá-la; quando não é favorável devemos transformá-la e quando não pode ser transformada, devemos transformar a nós mesmos.”.

São momentos como esse que estamos atravessando agora que trazem as maiores oportunidades de transformação no âmbito individual e coletivo. Temos um passado de lutas históricas, contundentes o suficiente para nos mover adiante. E temos a rede de in-formação que, mesmo que nos tirem a internet, encontrará os veios (e veias) por onde circular livremente. Sabemos que do ponto em que se encontra, não tem volta: tudo está na superfície, tudo está à mostra. Os dinossauros vorazes que aí se encontram não estão se ocultando por trás das moitas: isso é impossível. Quem não viu, verá. E nunca devemos esquecer que mesmo os mais fortes entre eles, foram extintos.

O mal não é pessoa, é substância emanente de cada um de nós, como o bem. Qual é nosso papel, afinal? Já está claro que esta dramaturgia é uma construção coletiva, vivemos em uma “democracia”, somos representados por aqueles que escolhemos espontaneamente (pelo menos a maioria de nós). De qualquer modo, somos todos responsáveis. E mesmo os que não se interessavam ou se mantinham alheios, agora começam a perceber os mecanismos e ver como funciona a máquina. Alguns ainda de forma bastante equivocada, pensam que os fins justificam os meios. Outros, mais lúcidos, sabem que os meios definem os fins. E tem ainda os mais conscientes, que sabem que meios e fins são somente referências numa reta (que hoje sabemos que não é reta nem tampouco estática e que está mais para um holograma). São esses últimos que formarão uma massa crítica que tirará a todos da cegueira coletiva da dualidade, do binarismo.

“Pode-se tirar tudo de um homem exceto uma coisa: a última das liberdades humanas — escolher a própria atitude em qualquer circunstância, escolher o próprio caminho.”

Saibamos escolher. Estar na presença, desfrutar os bons momentos na companhia de quem amamos, ajudar quem está precisando, falar a quem quer ouvir, ser surdos a quem quer gritar, mudar as situações desfavoráveis e transformar a nós mesmos, são excelentes escolhas. Amar e espalhar amor em tempos de golpe é a escolha mais moderada.

“A liberdade não é o fim do caminho. É o começo. Não há lugar algum para ir. A liberdade é primeira e última coisa no caminho.” Krishnamurti

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.