Blusinhas

Há nem tanto tempo atrás, vivi um inverno muito querido. Por causa dele, guardo uma coleção de casacos que quase podem se aceitar como caídos no ostracismo. É tanta lã que poderia esquentar muito além da derme. Talvez seja esse o motivo de guardá-los tão inutilmente: era inverno, mas houve ternura.

Por debaixo de todas as minhas camadas, fui aprendendo a temperar o peito quente com a ponta de nariz fria, até que minha pele absorvesse todas aquelas tramas e o que era quente por fora fosse sol dentro de mim. E enquanto eu mudava de ares e esse ponto azul dava mais uma volta no espaço, o apreço por essas peças de roupa só crescia. Não se esquece mangas tão compridas a ponto de serem cheias de abraço; não se deixa para trás pashiminas tão coloridas a ponto de abrir sorrisos em dias de chuva. Há quem consiga: eu não.

Sempre que o termômetro bate em qualquer grau abaixo de 20°C, meu coração já se acelera — tanto que o sangue circula forte e eu chego a sentir calor. Olho de esgueio para aquele suéter vermelho de poá e vestí-lo torna-se uma necessidade elementar. Na maioria das vezes, resisto ao impulso. Saudade é forte, chuta a porta, mas não chega a se impor ao suor. É que ela ainda não descobriu que precisa trazer alguma companhia (do) presente para que monte acampamento e desbanque a presença incontestável da hipertermia. Porque apesar dela tomar conta da minha memória, ela é proibida de ser maioria simples em meu coração. É preciso que se eleja muito bem quem vai governar esse corpo e por hora deixo que a brisa belorizontina governe meus sentidos e me faça portar apenas vestidinhos de manga curta.

Fecho a porta do meu armário sempre com uma sensação de estar sendo injusta, pois é bem verdade que a falta que elas sentem de mim é correspondida. Mas Belo Horizonte ainda nos consede a graça esporádica de salpicar frentes frias no calendário e eu nunca fui de dispensar uma boa oportunidade. Saibam bem, minhas queridas blusinhas: a temperatura vai cair no decorrer do percurso e eu não hesitarei em usar o que me é terno de novo.