Felipe
Felipe podia ter nascido com o rei na barriga. Ao invés disso, veio com o peito cheio de insubordinação. Nem seus cabelos obedecem a única lei que vale para todo mundo: a gravidade. E por falar nela, sempre que necessário, Felipe cria asas e parte daqui para algum outro lugar onde se faça melhor.
Tudo que passa pelos extremos da vida, Felipe quer experimentar. Hunter Thompson das alterosas, ele precisa sentir tudo na pele e cuspir em palavras. Só então consegue assimilar esse quadro estranho que ele admira de longe e suspeita ser sua realidade. Essa última não lhe convém. Não combina com sua qualidade de desobediência. Felipe não quer e não aceita imposições. Enfrenta tudo com acordes e sorrisos vagabundos.
A vagabundagem não se limita à sua boca, porém. Felipe é devoto dela. Não por ser preguiçoso, mas por saber que é nela que a vida corre. Tudo que lhe é mais caro, é — em alguma ou toda medida — vagabundo. Cerveja à tarde em dia de semana, trompete na segunda-feira de manhã, andar a pé pelo centro da cidade, dias de reclusão em Nova Lima ou simplesmente deitar no meio dos livros e não ler nenhum. Felipe é inimigo público do compromisso. E por dar tanto de ombros, se tornou o melhor deles para chorar.
Felipe é um lugar onde as pitangueiras estão sempre peladinhas, pois sempre que o avistamos, alguém acabou de passar ali para chorá-las com ele. Vez ou outra ele faz cair umas também: seu coração cabe muitos amores que valem uma noite de fossa ébria. Mesmo não sendo de reclamar, Felipe conhece o lamento. De tanto ler poemas e treinar músicas da Bossa Nova, ou por simples empatia.
Amigos, Felipe tem muitos. De vez em quando, uma luzinha se acende nele: “É hora de juntar!”. Agrega gente de todos os seus tempos, de todos os seus gostos, mistura-os todos e faz uma bela roda de violão. Regados em álcool, envoltos em fumaça, Felipe e os seus viajam juntos em um transe de amizade para só acordarem na segunda-feira. De ressaca. Ao meio-dia. Estar ao lado de Felipe é inebriar-se.
Sua risada é contida, o que é muito bom, pois lhe faz balançar todo o corpo. Toda vez que sorri, Felipe dança. E no seu balanço, somos carregados por uma buena onda de companheirismo e uma sensação muito clara de termos nos descoberto nele: no melhor lugar do mundo.