Quero diagnosticar o Brasil de uma síndrome muito séria. Mas quem sou eu pra fazer isso? De verdade, eu sou ninguém. Não sou ninguém, no sentido de não ter qualquer autoridade ou poder. Aquisitivo ou político. Eu sou jovem, estudante e ainda não sou independente financeiramente de meus pais, mas de vez em quando, deixo a minha mente viajar e ela me convence: minha opinião vale. Daí então, me sinto no direito de opinar sobre esse mal que nos assola o coração, agora em tempos de Copa do Mundo. Que mal é esse? É a síndrome da Mulher de Malandro.
Vou explicar: é que brasileiro sempre amou futebol. Está no cerne da nossa gente. Até militante comunista nos tempos mais duros de ditadura tinha um time pra chamar de seu. Futebol é uma paixão. Está gravado na nossa história e até quem era tropicalista e foi exilado pra além-mar, já compôs sobre esse fenômeno que é o futebol. Mas de uns anos pra cá, o futebol tem brincado com o nosso coração. E não é o tipo de abuso que a gente está acostumado a levar pra casa. Porque, é claro, só um time pode ser campeão e as gargantas sofrem muito em cada partida. Assistir a um jogo pode até nos deixar sem voz. Mas é justamente isso que não pode acontecer agora no Mundial.
O futebol sambou na nossa cabeça. Deixou nosso peito partido e o torcedor contrariado. Os gastos exorbitantes com as obras, o "padrão FIFA", a Lei da Copa, a corrupção, o tanto de gente desabrigada pelas obras, as políticas de higienização nas cidades-sede. Tudo isso entristece o fanático por futebol e o deixa pensando: "Caralho, será mesmo que eu devo torcer?"
Nos últimos dias, eu tenho lido alguns artigos de muito colunista foda nos mais variados meios de comunicação desse meu Brasil varonil e foi aí que diagnostiquei a síndrome da Mulher de Malandro. É muito intelectual ~formador de opinião~ se deixando ser seduzido pela paixão, agora que a bola está prestes a rolar. O que aconteceu com o #NãoVaiTerCopa? E as Jornadas de Junho? Nossas reivindicações — que eram tão diversas, tão variadas — foram todas atendidas? A homofobia foi abaixo e agora a comunidade LGBT já está em pé de igualdade perante a sociedade civil, o transporte público foi reformado, amplamente discutido pela população e as tarifas não pesam mais nos nossos bolsos, a ocupação do espaço público por iniciativas culturais e populares é aberta e não enfrenta mais burocracias, as reservas indígenas são preservadas e não mais ameaçadas pela iniciativa privada ou por grandes empreiteiras, os professores da rede pública são dignamente remunerados e reconhecidos pelo Estado e pela sociedade, o machismo e o racismo foram erradicados (talvez para sempre)? E os vinte centavos, minha gente? Em Belo horizonte, eles já subiram.
É claro que muitos dos problemas do Brasil são anteriores à Copa. No entanto, tem sido cada vez mais difícil de engolir a seco tudo aquilo que antes passava. Desde 2007 tem sido assim. É difícil ver que mais uma vez o orçamento público foi defasado para atender a questões que nem a nós são destinadas. É revoltante ver que todo esse esforço foi feito, todo esse dinheiro já foi roubado (alô, Joana Havelange!) pra atender quem não é filho desse solo. Ô, Mãe Gentil, olha pra nós!
O brasileiro deu seu coração pro futebol em uma bandeja de ouro pela qual ele não poderia pagar. Fez toda uma cerimônia, mas o danado continuou batendo. O futebol está traindo sua esposa mais fiel. Somos todos um bando de Amélias, que seguem ao lado de seu homem mesmo depois de tanto abuso, tanta dor. Mulheres de Malandro.
Dito isso, desejo toda a sorte do mundo aos 23 mocinhos que vão entrar em campo pra defender a nossa camisa. E que eles saibam aproveitar a visibilidade que vão receber para passarem uma mensagem de respeito, contracorrente e consciente. O mesmo pros colegas de profissão que já têm espaço na grande mídia. Ao resto (jovens ninguéns como eu), desejo que essa contradição sobreviva em nossas mentes de forma criativa e gritante, pra que se ouça lá dentro dos estádios esse nosso amor. Que é pelo Brasil e pelo futebol e não pelo o que fizeram dele.
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