Vida mínima

Deitar em uma rede é a posição que mais procuro. Não por sua escassez, mas pela preguiça que ela proporciona. E, à medida que o corpo cai, a mente viaja. Meu ócio é, assim, sempre tão produtivo.

Somos felizes quando somos atoa. Enfurnados, nem oficina do Diabo temos acima do pescoço: somos vazios. Falta instrumento para a felicidade e para o criar. Ninguém passa um terço do dia entre quatro paredes a sorrir. Eu desafio a classe trabalhadora a me apresentar esse proletário feliz entre nós.

Felizes somos sentados em uma cadeira de lata, em dias de sol e nenhuma nuvem. Poltronas ergométricas e cadeiras de rodinhas apenas nos afastam, não confortam: são totens da diferença e do poder, que uns teimam em ter e outros revolucionam por ele.

Felizes em casa, rodeados de plantinhas, animais de estimação e comida caseira. Pimenta é bom mesmo é na minha macarronada de domingo, servida farta e com frango de padaria. Um almoço desse não vem em menu executivo. Só sai depois das três da tarde e de panelão sem teflon.

Espreguiçando somos flexivelmente felizes. Artistas de circo por frações de segundo, sorrimos no canto da boca em cada bocejo. O sono é sempre muito gracioso quando não é necessário. Mas quem é que tem tempo de ser expulso da cama pela própria?

Gestos pequenos, passeios miúdos, lembrancinhas: é tudo que há de bom. Tudo que não excede, que não exaure é bom. O cansaço físico é muito bom também: nada como perder o fôlego. Mas cansar-se por conta própria. Caminhar pelo centro da cidade, nadar ofegantemente em uma cachoeira. Tudo isso é bom e até faz bem para a saúde. O mal do século são os suspiros que puxamos dentro do carro ou em frente ao computador.

E como se não bastasse os melhores perfumes virem nos menores frascos, são as menores ações aquelas que nos arrancam mais sorrisos. Grandes gestos são antecedidos pelo desespero. Bom mesmo é a vida em conta-gotas. Por isso, a preciosidade da preguiça. Por isso, a postura revolucionária de se saber vagabundo.

Faça menos: felicidade é mais.

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