DOIS COPOS

"JOVEM DE 22 ANOS SAÍA DE UM BAR CARIOCA APÓS TER SE DIVERTIDO A NOITE TODA E SOFRE ACIDENTE DE CARRO."

"Sofia Arantes Cardoso, 22 anos, foi para um bar na noite de quinta-feira com os amigos comemorar sua volta à cidade. Depois de uma confusão por causa de 2 copos quebrados na mesa da jovem, Sofia e seus amigos saíram do bar sem pagar a conta. O namorado da dona do bar perseguiu os jovens e bateu no carro que eles estavam, fazendo-o capotar. O carro ficou destruído. O namorado fugiu logo após o acidente. Amigos de Sofia, Pedro e Alexandre, tiveram ferimentos leves. A garota está no hospital e seu estado é grave."

Após ler a notícia, Malu se recorda, exausta, da noite anterior. Ela estava dormindo, em casa, quando recebeu um telefonema de seu pai. Era pouco depois da meia-noite e, com a voz falhando, seu Jorge informou que sua irmã tinha sofrido um acidente de carro e estava sendo levada ao hospital. Malu se levantou rapidamente e, ainda atordoada pelo sono e pela notícia, colocou uma roupa qualquer e saiu para o hospital.

Malu tinha 28 anos e era produtora cultural. Sua família tinha se mudado para o Rio de Janeiro quando ela fez 7 anos. Tinha 2 irmãos; Sofia e Thomas, gêmeos que nasceram pouco antes de mudarem de cidade. Ana, sua mãe, era escritora e trabalhava com linguagem inclusiva. Ela tinha recebido uma proposta de trabalho na capital carioca e trouxe a família.

Malu estava sempre alegre e gostava de fazer rir aqueles com quem convivia. Quando chegou ao hospital, porém, ela estava séria como era apenas quando estava trabalhando. Notavelmente abalada, entrou na recepção médica com Sofia nos pensamentos. Sofia morava em Brasília; mudou-se por causa da faculdade e havia chegado ao Rio no dia anterior. Enquanto Malu percorria os corredores do hospital, ela pensava em formas de não parecer tão abalada na frente dos familiares, que provavelmente já teriam chegado.

Por que esse acidente tinha acontecido? Por que logo com a sua irmã? Por que logo agora? Como ela devia encarar as pessoas que estavam à sua espera? Todas essas perguntas fugiram de sua cabeça quando ela finalmente encontrou sua família na sala de espera do hospital. Ela parou, imóvel, na frente deles. Não conseguia se mover, não conseguia mudar a expressão de preocupação no rosto, não conseguia, se quer, respirar normalmente.

Seu pai logo veio abraçá-la e os dois se mantiveram mudos. Não apenas se abraçavam, sentiam a respiração um do outro, sentiam o sangue correndo rápido no outro, se apertavam como se tentassem, naquele gesto, proteger a irmã e filha do perigo. Depois, Malu abraçou sua mãe, depois seus tios e seu irmão. Todos estavam com uma expressão nada agradável. Malu esperava pelo pior.

Ela se sentou junto aos outros enquanto esperavam por alguma notícia. O tempo passava vagarosamente na sala mas rapidamente em sua cabeça. Lembrava de todos os momentos que passara com Sofia. Tentava esquecer o tempo que ficaram longe uma da outra. Quanto da vida de cada uma ainda havia para compartilhar? Como estava o final da faculdade? Ela já tinha começado o TCC? Será que ela estava com alguém? Malu não conseguia responder nenhuma pergunta mas também não era capaz de enganar sua curiosidade repentinamente angustiante.

Uma hora e vinte e quatro minutos depois que Sofia tinha dado entrada na emergência do hospital, o médico encarregado pela menina saiu da sala com o semblante exausto. Uma hora e vinte e quatro minutos. Esse foi o tempo que a equipe médica passou tentando salvar Sofia. O médico então deu a notícia indesejada. Indigesta. Sofia perdeu muito sangue e não tiveram como conter. A família se afundou num choro triste e profundo.

Malu estava em estado de choque. Seus avós, que haviam chegado há pouco mais de meia hora, tinham a expressão de quem não acreditava no que estava acontecendo. Enquanto seus pais e tios choravam e se abraçavam, ao mesmo tempo que se seguravam para não sucumbirem ali mesmo no chão da sala de espera, Malu continuava sentada, imóvel, com as mãos no rosto. Seus olhos estavam cheios de lágrimas que não escorreram de início pois ela não conseguia piscar. Suas mãos apoiavam a cabeça para não cair. Os dedões seguravam seu queixo trêmulo, evitando que seus dentes batessem. Os dedos indicadores tampavam o nariz, tentando evitar, sem sucesso, que escorrecem. As pontas dos dedos pressionavam a glândula lacrimal numa tentativa inútil de não chorar. Malu estava em estado de choque.

Nada do que estava acontecendo na sala conseguiu tirar Malu daquele estado. Neste momento, não havia ninguém para vir abraçá-la. Todos estavam desnorteados. Até que Malu viu seu irmão se distanciar do bolo formado pelos parentes com as mãos nos bolsos de trás da calça. Ele parecia tentar evitar que sua alma e sua essência fossem embora, curvando os ombros para próximo do pescoço, sem tirar as mãos dos bolsos traseiros. Foi então que Malu saiu do estado de choque e atravessou a sala para abraça-lo. Ele então quis desabar. Ela segurou forte. Silenciosamente, ela falava para ele não cair.