O direito de ser vadia
Entenda como diferenciar a depravação do direito que as mulheres têm de serem quem elas quiserem.
Talvez o Carnaval seja o maior evento comemorado no Brasil. Com ele, sempre surgem os famosos "hits do verão", que já abrangem todos os estilos musicais, do samba ao brega. Neste ano de 2017, um hit que está concorrendo aos "mais tocados do Carnaval" é a música "Todo Dia" de Rico Dalasam, primeiro rapper brasileiro abertamente gay, interpretada por Pabllo Vittar, a drag do programa Amor & Sexo, da Rede Globo.

Quando escutei a música pela primeira vez, a letra fez um sentido muito simples pra mim: eu não preciso esperar o Carnaval chegar para ser quem eu quiser, vou ser quem eu quiser TODO DIA. Entretanto, o mundo não funciona como dentro da nossa cabeça e, de repente, as pessoas estão causando um alvoroço negativo em relação a isto. Faz-se preciso, então, desdobrar alguns pontos:

Vadia, como tantos outros substantivos, no feminino tem uma denotação diferente da masculina, normalmente com conotação sexual depreciativa. O homem vadio é aquele que não faz nada ou não quer trabalhar. Já a mulher, é devassa e amoral.
Apostura de diminuir a mulher usando o sexo é tão comum (e errada) que muitas vezes passa despercebida (pelos vadios da vida). Se você parar para pensar, vai ver que muitos outros substantivos e adjetivos passam pela mesma problemática: galinha é o homem macho-alfa, pegador. Já a mulher, é a puta, vadia.
É preciso esclarecer de uma vez por todas que lugar de mulher é onde ela quiser. Principalmente, no que tange sua sexualidade, seu sexo e suas formas de expressão. Independente de qualquer coisa, ela merece respeito. Se a mulher quer transar com quem ela quiser e quantas vezes ela quiser, ela pode!
(Lembrando sempre da proteção sexual de doenças e outras ameaças).
O ponto mais óbvio, talvez, desse tema é a Marcha das Vadias, movimento que surgiu no Canadá e logo se espalhou pelos quatro cantos do mundo por um motivo simples: nenhuma pessoa MERECE ser vítima de qualquer crime que seja, principalmente mulheres vítimas de abusos e violência sexual. Não é a roupa ou qualquer outra característica que estimula o estupro, mas sim uma cultura de desrespeito histórico com a figura feminina, massivamente tratada apenas como instrumento sexual e reprodutivo.
Temos de um lado o homem, que pode andar semi-nu nas ruas sem nenhum problema. Ninguém olha fixamente para seu corpo, ninguém faz comentários desrespeitosos, ninguém se deixa excitar incontrolavelmente por isso. Já a mulher tem que cobrir seu corpo todo para não correr o risco de perder um pedaço de sua integridade (física ou existencial).
Isso nos leva ao segundo ponto, que já traz a temática da prostituição, prática sexual em troca de dinheiro. Existe uma eterna discussão se a prostituição é uma profissão ou não, se é uma opção ou falta de opção, (aqui se faz necessário um corte para ressaltar que, neste texto, não será considerada a exploração sexual, principalmente de crianças e adolescentes, na maioria das vezes feita por homens). Para estes casos, denuncie aqui!
Excluindo as situações de exploração sexual e violência, conceitualmente, não há nenhum problema em se prostituir. "Meu corpo, minhas regras", apesar de ser uma campanha sobre o direito ao aborto, se encaixa muito bem em várias discussões que envolvem a equidade das mulheres, pois se você acha desprezível uma mulher se prostituir, deveria realmente também desprezar os homens que consomem o serviço da prostituição.

Contrapondo a visão antiquada de alguns que veem a prostituição sob um prisma depreciativo apenas para as mulheres, como podemos ver no trecho a seguir, a boa puta não é aquela que não tem cara de puta, mas sim aquela que assume a postura e se impõe perante suas responsabilidades.
Em meias palavras, defender o direito da mulher usar seu corpo da forma como quiser ou cantar um ode à vadiagem, não significa putaria. E mesmo que fosse; não tem nenhum problema em se prostituir por vontade própria.
Mas o que prostituição, equidade e o sexo das mulheres tem a ver com a música apresentada no início? TUDO!
Ao analisar a letra e conhecendo a história de sua composição, fica claro que a música levanta a bandeira da liberdade e autonomia ("Tô tão bem assim, não vem mandar em mim, não funciono assim"). É justamente o direito de ser o que quiser, quando quiser, independente do que as pessoas vão falar. Não significa que as mulheres estejam todas querendo ser putas e realmente transar com todo mundo, mesmo que não haja problema nenhum nisso, como explicado acima.
O significado de ter um hit do verão, com uma visão libertária feminina, composto por um rapper, interpretado por uma drag, é quase orgástico.
Não é por ser mulher que podemos menos que os homens; não é por ser mulher e usar meu corpo da forma como eu quiser que eu sou vadia; não é por ser mulher e satisfazer meus desejos sexuais que eu sou puta. E mesmo que seja; nenhuma atitude abusiva cabe aqui!
