Fogo e pedra e feminismo radical

Eu, que entro agora na casa dos 20, não tenho a menor ideia do que possa significar ser uma mulher no auge dos seus vinte-e-poucos na década de 60 - muito menos uma mulher que virou do avesso o movimento feminista com essa idade e nesse período - mas foi isso que Shulamith Firestone viveu. A estudante de Arte na Universidade de Washington, nascida em 1945 e insatisfeita com as reivindicações sufragistas iniciadas no século anterior, tinha algo a dizer. Direito ao voto e salários igualitários para homens e mulheres não eram o que ela tinha como prioridade.

Humanidade na vida pública e também na privada. Teorizando sobre amor, família, gênero, política e sistema patriarcal, Firestone se tornou uma das vozes mais incômodas da história do feminismo.

O ano era 1967. A canadense filha de pai e mãe judeus ortodoxos terminava sua graduação e fundava no fim de setembro o primeiro coletivo radical feminista do qual se tem notícia, em parceria com a estudante de Ciências Políticas Jo Freeman, após terem suas participações barradas na Conferência Nacional de Novas Políticas de Chicago, sob o argumento de que “havia tópicos mais importantes a serem discutidos do que libertação de mulheres”. Dois anos depois, entretanto, divergências ideológicas levaram as mulheres do coletivo a se separarem. Socialistas, baseadas nos escritos de Marx, acreditavam que reforma política traria o fim da desigualdade entre sexos, mas segundo Firestone, elas estavam enganadas: homens de esquerda pregavam e praticavam tanto sexismo quanto os outros homens.

A partir desse momento, o termo radical passou a ter ainda maior significado. A revolução feminista, para Firestone, iria além de classes e etnias - o sistema patriarcal permitia que homens, na posição de sexo dominante, oprimissem mulheres sob quaisquer circunstâncias e a necessidade urgente de abolir esse sistema foi o que fez nascer, então, a segunda-onda feminista.

Mais tarde, dois outros grupos tiveram Firestone participando de suas fundações. Um feminismo que cavava até as raízes da opressão de gênero, denunciando pornografia, prostituição, estupros maritais, maternidade e heterossexualidade compulsórias estava ganhando voz. E críticas.

Emocionalmente exausta com conflitos internos, Shulamith abandonou toda a militância coletiva e passou a se dedicar ao livro que escrevia. Publicado em 1970, A Dialética do Sexo enxergou na base da inequalidade entre homens e mulheres a própria biologia. Gravidez, parto e educação infantil são vitais para a existência humana, mas a necessidade de reprodução da espécie foi o que tornou mulheres vulneráveis ao patriarcado, sistema que tem como prioridade limitar mulheres a algo menos do que donas de si mesmas. “Mulheres pela história antes dos métodos contraceptivos estavam constantemente à mercê de sua biologia - menstruação, menopausa, ‘histeria e outras doenças femininas’, dores de parto e responsabilidade 24/7 por crianças as tornaram totalmente dependentes de homens (fossem irmãos, pais, maridos ou o Estado, em maior escala) para sobreviverem”, ela escreveu.

A solução? Abolição do significado cultural que as diferenças biológicas/genitais entre fêmeas e machos ganharam na raça humana - além, é claro, de liberdade contraceptiva e direito ao aborto para todas as mulheres.

Surpreendentemente de maneira nenhuma, o livro de Firestone foi violentamente criticado pela mídia ao mesmo tempo em que se tornou um bestseller e livro de cabeceira de milhares de mulheres em nível universitário.

“Uma revolucionária em cada quarto não pode falhar em balançar o status quo. […] O feminismo, quando verdadeiramente alcança seu objetivo, destrói as mais básicas estruturas de nossa sociedade.”

Elogiada por Simone de Beauvoir (tendo sua obra chamada de “manifestação espetacular” por esta) e sendo fonte de inspiração para outras mulheres que também se tornavam ícones da vertente radical, como Andrea Dworkin, Sheila Jeffreys e Germaine Greer, entre tantas outras, Shulamith Firestone logo desapareceu e se isolou até sua morte - em agosto de 2012. Vítima de perturbações mentais (possível esquizofrenia percebida após um trabalho revolucionário realizado no meio de tanta repressão), ela foi encontrada depois de morta há uma semana, no apartamento onde viveu por mais de três décadas.

Morreu como viveu. Solitária e incompreendida.

Diante das telas, em um curta gravado durante seu último ano de faculdade e encontrado apenas em 1997 por Elisabeth Subrin, Shulamith Firestone dizia: eu geralmente me identifico com grupos opostos à poderosa massa homogênea, não posso evitar criar um laço com outras pessoas que também não se encaixam nas coisas.

Hoje, 50 anos após o início da história dessa mulher como feminista e cinco anos após o fim, o tão impopular e criticado radfem ainda tem como prioridade abraçar mulheres que “não se encaixam nas coisas”.

Neste setembro, celebramos os 50 anos da segunda-onda feminista.

Ou onda radical feminista.

Ou onda de Firestone, como preferir chamar.

Ainda hoje, por todo o mundo, suas ideias escritas continuam sendo importantes. A batalha pela libertação feminina segue entre fogo e pedra. O feminismo radical ainda resiste.