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Eu não posso ser o que você quer se eu não sou o que quero.
Repito isso dezenas e dezenas de vezes, olhando pela janela o vazio nada silencioso que me sufoca neste apartamento. Os carros buzinam e tudo se mantem estático, nada se move, nada acontece. Bato o cigarro no cinzeiro e sinto um nó se formando na garganta e de repente noto que, o barulho que me enlouquece nesse metro quadrado, não é o que vem de fora, da rua, é o que vem de mim. De dentro de mim.
Suspiro sentindo o desgaste psicológico me atingindo em cheio mais uma vez nesta semana. Hoje. Trago uma, duas, três vezes e meus pulmões clamam por um novo corpo e eu os entendo, mas não os suspendo de me manterem viva por mais uns meses, ainda não. Minha respiração golpeia o vidro e sinto o ar quente chocar-se contra a epiderme fria, meu corpo se adequa a parede, me dando ainda uma visão ampla de toda a avenida e todo o seu caos.
A ansiedade de apenas olhar pela janela me consome, como se eu fosse uma impostora de meu próprio corpo e que, estar ali, apenas observando outros corpos, me tornasse uma partícula menor do que sou, e tão inútil quanto qualquer outra.
Eu não posso ser o que o mundo quer quando eu não sou nada.
