O doce que era te amar

malu reining
Aug 28, 2017 · 2 min read

Eu nunca vou te entender. E, talvez, isso seja a razão para esta carta.

Entender esse seu vício descontrolado em canela e essa mania chata de ter que colocar em tudo o que comíamos, deixando por toda minha pele esse cheiro inebriante que saía de suas mãos enquanto me beijava. E eu fingia que não amava o agridoce que vinha de teus lábios no fim do beijo.

Mas se tornou amargo quando você enfim acreditou no que dizia.

Ou então entender porquê por todo o jardim que passávamos você tinha essa necessidade de olhar por todos os ângulos e me sorrir, por cima desses teus ombros pequenos, que cabia perfeitamente o peso do meu corpo nas manhãs de domingo. E você sempre, sempre, as roubava com o rosto corado e olhos bem fechados, como se roubar flores de jardins alheios fosse um crime hediondo. Sorrindo logo em seguida com as mãos trêmulas junto das minhas.

E eu odiava a fato de achar que uma ladra de flores era algo tão lindo.

Quando você adoçava o café até ele ficar doce como uma rapadura? Como se todo o açúcar de casa estivesse naquela caneca. E você o bebia! Doce daquele jeito, encostada na janela e me corroendo até a alma com seus olhos negros e grandes, do outro lado da sala.

O sabor de me amar já era amargo o suficiente para ela, por isso adoçar o que eu mais detestava era o mais sensato.

Mas eu entendi quando o toque se tornou áspero, o suspiro passou a ser cansado e o café se tornou amargo. Canela? Não conhecia mais o cheiro e, tampouco, via flores pela casa.

Tudo o que me restou foi sua carne debaixo de minhas unhas; o sabor de canela bem no fundo de minha boca, junto de uma xícara com o fundo de açúcar, terminando ali de amargar no meu criado mudo. E eu encontrei todas suas flores, mortas e secas, no fundo do meu armário.

E, em todo aquele apartamento, eu me encontrei. Mas não a encontrei mais. Tudo o que me sobrou foi uma carta manchada de café — com açúcar — e flores que trouxe da rua para o vaso novo que comprei. E o bolo no forno está assando, de maçã com canela.

Eu não entendia a mim, que fingia não te entender por medo de amar todas essas suas partes bonitas e que me amavam.

Espero que alguém te entenda.

)

malu reining

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eu sei lá eu

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