A imoralidade do Rei do Camarote (e a sua também)

Porque ele e você são igualmente imorais!


O cidadão que é hoje conhecido como o “Rei do Camarote” está sendo falado por todos nas redes sociais e jornais. Alguns especulam ser uma farsa, um personagem criado por alguém para trollar a mídia ou como talvez uma campanha de marketing tipo a do Chiquinho Scarpa. Outros dizem que ele é real e que essa conversa de ser farsa ou não é apenas para preservar sua imagem que ficou manchada após a matéria da Veja SP.

Para quem não acompanhou, um resumo: A revista Veja SP, voltada para o público classe média alta de SP, publicou uma matéria com um rapaz dizendo ser o rei dos camarotes onde ele dá várias dicas de como ser bem sucedido em um camarote — vestir roupas de grife, andar com seguranças, ir de Ferrari para a boate, ter famosos e mulheres bonitas no camarote e por aí vai. Enfim, nada mais do que uma descrição comum de como pessoas ricas gastam seu dinheiro. Por isso não importa para este texto aqui se ele é real ou um personagem. O que ele descreve é real.

O curioso foi a repercussão. O brasileiro não gosta de ver rico esbanjando dinheiro próprio. E fica indignado por isso. E as críticas foram das mais diversas. Desde chamar o sujeito de feio, dizer ser absurdo gastar tanto dinheiro em futilidades, dizer que ele era infeliz porque precisava “pagar” por amizades.

Eu penso que todas essas críticas estão erradas. Uma pessoa tem o direito de acumular riqueza (desde que não o faça imoralmente através do crimes ou exploração escrava por exemplo) e de gastar com artigos de luxo (desde que tais artigos também não sejam fruto do sangue alheio como a morte desnecessária de animais, exploração escrava, etc). E ser rico não significa ser infeliz ou não ter amizades. Acredito que se for real, o tal do rei do camarote tem sim bons amigos e bons momentos de felicidade.

Se há algo de imoral no que esse sujeito faz, é exatamente o mesmo de imoral que há no que a grande maioria das pessoas de classe média fazem. Ou seja, todos os que criticam cometem o mesmo tipo de imoralidade sim.

Futilidade: Qual a diferença de futilidade entre um rico gastar 50 mil reais em uma noite e uma pessoa de classe média gastar 2 mil reais em um Iphone 5 dividindo em 10 vezes? Na prática, para a grande maioria das pessoas, o iphone é sim um artigo desnecessário. Fútil. É, nas palavras do rei do camarote, apenas algo para “agregar valor”.

O que há de imoral é que ele e você (digo, a maioria das pessoas que estão lendo este texto) não se preocupam em salvar vidas com o que tem de sobra. Se preocupam em futilidades como um artigo tecnológico apenas para agregar valor social, um final de semana se embebedando em cerveja enquanto poderia beber metade, ou até mesmo 500 reais em um camarote no carnaval enquanto poderia curtir ao menos um dia a menos de carnaval.

Mais especificamente, assistam ao vídeo abaixo e entendam o argumento:

http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/peter_singer_the_why_and_how_of_effective_altruism.html

Portanto, todos os que ganham ao menos mil reais por mês tem condição de doar o que puder (ou seja, no mínimo 1% do que ganham) para salvar vidas. Qual diferença faz, para quem ganha mil reais por mês, doar 10 reais para salvar vidas? Claro, algumas famílias só possuem um membro que ganha mil reais por mês, então esse dinheiro todo é consumido, mas não é dessas famílias que falo. Falo das pessoas de classe média que individualmente ganham no mínimo mil reais por mês. Quantas cervejas a menos são 1%, ou 5% do seu salário? Ao invés de comprar um iphone 5, por que não um celular mais barato com os mesmos recursos que você REALMENTE precisa?

Seu dinheiro pode ser usado para salvar estas crianças. Deixar de salvar a vida destas crianças só para ter um Iphone ou beber 5 cervejas a mais é ou não é imoral? É ou não é fútil? Então porque você não começa agora a salvar vidas?

Doar o que puder não significa abandonar um estilo de vida com lazer e qualidade. Significa apenas cortar as futilidades de nossa vida, que são tão fúteis quanto a do rei do camarote.

Claro, estou aqui assumindo que ele não doa. Mas se ele tem o hábito de doar ao menos 5 ou 10% dos seus ganhos mensais, então ele não é nem um pouco imoral ou fútil no que diz respeito ao vídeo que ele publicou. Você sim, é, porque não doa.

Não salvar vidas é imoral tanto para ricos que não salvam quanto para classe média que não salva. Como você.

Links para começar a salvar vidas:

http://www.msf.org.br/

http://www.thelifeyoucansave.org/

http://anjosdanoite.org.br/

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