Dor Filha-da-Puta

Sentiu essa dor?
Dor estúpida.

Dor que deturpa,
que machuca.
Dor filha-da-puta.

Essa dor me fere o peito.
Estes seios já secos,
caídos, sem mais os mamilos acesos.

Que imagem é essa,
que lateja.
Distorcida, com pus,
putrita,
deste corpo já cansado,
sofrido, ferido e castigado.

Corporativismo, estuprado.
Nesta minha luta prostituta.
Nesta minha labuta:

- Mas que Dor filha-da-puta.

Que dor é essa,
sem pai.
Filha bastarda,
que só,
me atrapalha.

Dor virgem,
que dói sem parar,
que doí em transar.

Que puta dor é essa,
que é toda nossa,
que só me chupa,
já não me dá tesão,
só tensão,
não dá mais emoção;
Já não palpita o coração.

Estou imerso nesta loucura:

- Que dor, que dói é essa?

Dor que doí
em sair de casa.
Para trabalhar;
tomar busão lotado;
sentir cheiro de sovaco;
mendigo descalço.

Dor em ser assaltado.
Dor de comer fast-food,
depois cagar.

Dor de supervisor enchendo saco…

- Aí, aí, aí!
- É esta dor!

De não sentir.
De não viver.
Dor de cair.
Dor de levantar.

É só sofrer,
e me perder…

Que dor é essa,
que me dá no saco?
Saco já inchado,
que tanto coca,
que já não goza.

Que dor é essa,
que tanto incomoda?

Que dor filha-da-puta.
Dor de assalariado.
Dor de desempregado,
desesperado.
sem tempero,
sem sal,
sem graxa,
que arregaça.

Dor de aposentado,
casado,
cansado,
de tanto estudar,
e me afogar,
e nada dar.

Dor de ser traído.
Dor de amar,
e ser amado.

Dor de dor.
que doí.
que corrói.

Dor fingida,
de poeta.

Dor.
EXAGERADA!

Ferida aberta,
casca que coça,
que esconde,
que mostra.

Dor sem culpa:

- Como doí!
- Como doí!
- Aí, aí, aí!

Mas que dor,
Fillha-da-puta.

(por Manay Deô, poeta, Heterônimo criativo de Elidio Santos.
texto extraído da obra Pior do que o Tédio: a cura para o seu)