Vale a pena brigar por política (um desbafo)

Amanda Veloso
Sep 7, 2018 · 4 min read

“Você vai brigar por causa de política?”. Já cansei de ouvir falarem isso comigo. E por muitas vezes me senti mal. “Vale a pena brigar por quem não está nem aí para você? É tudo farinha do mesmo saco”.

Mas a questão está aí. Primeiro, não é tudo farinha do mesmo saco. Já começo este texto dizendo: não estou defendendo nenhum político em específico (antes que me chamam de comunista, petralha, Lulista, Dilmista, Venezuelista etc.). Mas sim, todos eles têm diferenças, e chegaremos a elas mais abaixo.

Segundo, eu não estou brigando por eles. Como disse, meu ponto não é defender ninguém, mas sim defender as coisas pelas quais eu acredito, e a política está intrinsecamente associada a elas.

Por exemplo, se eu acredito que o casamento gay deva ser liberado, eu voto em um candidato que defenda essa mesma proposta. Se eu acredito que a Petrobras deva ser privatizada, eu voto em quem tem isso no seu plano de governo.

O que eu quero dizer é que a política é expressão das ideologias e, mais, do caráter de uma pessoa. E se essa expressão mostra falta desse último, cortar relações passa a não ser algo tão absurdo.

A questão em torno do Bolsonaro, para mim, é isso. O Bolsonaro não é “farinha do mesmo saco”. Falar isso é até ofensa com o Alckmin (vejam bem, o Alckimin). E meu repúdio a ele, Bolso, ou a quem quer votar nele não é intolerância à opinião política, é escolha de não ter como parte da minha vida pessoas que acreditam nas mesmas coisas que ele.

E vou explicar o porquê.

O Bolsonaro é racista. E não, não é ok ter um presidente que acha que 54% da população brasileira merece menos só por causa da sua cor da pele. Se você vota nele, você concorda com isso.

O Bolsonaro é misógino. Ele já afirmou que mulher deve ganhar menos que homem e que merece ser estuprada porque é feia. Se você vota nele, você concorda com isso.

O Bolsonaro acredita que bandido bom é bandido morto, mal pensando ele que se ele mata bandido, ele também se torna, oras, bandido. Se você vota nele, você acredita nisso.

O Bolsonaro é homofóbico. Ele repudia o casamento gay e acredita que eles não representam uma família. Se você vota nele, você acredita nisso.

O ataque que ele sofreu é fichinha perto das incitações que ele já fez, como quando falou que daria um tiro no FHC, desejou que a Dilma infartasse e incitou que os “petralhas” fossem mortos.

E enquanto eu não sou negra, eu represento muitas desses outros papéis que ele ataca.

Eu sou mulher e, segundo ele, mereço ganhar menos e posso ser estuprada se não me enquadrar em certos padrões de beleza.

Eu já beijei outras mulheres e já tive vontade de ter mais experiências com isso. Eu tenho amigos homossexuais pelos quais sinto toda vez que vejo alguém destilar preconceito e dizer que eles não podem casar ou ser uma família simplesmente porque são dois pênis ou duas vaginas.

Eu sou “petralha”, segundo os conceitos dele e de seus seguidores simplesmente porque eu defendo essas pautas.

E isso só para falar das posturas dele que não são “questão de opinião”, são descriminação e, para os desavisados, descriminação é crime. Além de ser, obviamente, uma completa falta de caráter.

Agora, se formos entrar na parte de opinião, ainda teríamos mais um bucado para discutir.

Eu poderia discordar da posição dele de legalizar as armas e o ataque que ele sofreu com UMA FACA já me daria muito argumento para isso.

Eu poderia argumentar como que o Bolsonaro não tem uma proposta concreta, não consegue responder uma simples pergunta sobre economia e nunca teve um projeto aprovado em 28 de anos de mandato.

Mas, aqui, vou aceitar a fala de tantos de que devo aceitar opiniões contrárias.

Você pode achar que um candidato não precisa ser inteligente para assumir a Presidência, que não precisa ter um histórico de bons trabalhos, e isso tudo são opiniões suas. E opiniões contrárias eu posso, sim, aceitar.

Em uma simples metáfora, eu posso aceitar que Cruzeirenses achem que o Fábio é melhor que o Victor. Eu NÃO posso aceitar que eles achem que Atleticanos não podem ir no jogo simplesmente porque são Atleticanos ou que Atleticanos merecem apanhar, de novo, porque são Atleticanos.

É uma metáfora simples perto da complexidade da realidade, como avisei. Mas é válida. E seguindo nela, eu não vou brigar com Cruzeirense porque eu acho que o Victor é muito (sorry) melhor que o Fábio, mas eu vou brigar se eles me descriminarem, quiserem tirar meus direitos ou incitarem qualquer tipo de violência AO QUE EU SOU.

Está na hora de parar de passar pano para ódio para “manter as relações”. E por mais que me doa, porque eu sei que isso atinge pessoas que estão entre as que eu mais amo, se você vota nele, você está corroborando com tudo isso que me ataca diretamente. E eu estou cansada de ter que ajustar o que eu sou pelo tradicionalismo ou ódio dos outros, não importa quem esses outros sejam.