Os amigos de Werner Herzog.
Mais do que um diretor de cinema renomado, Herzog é uma lenda viva. Por isso não importa se você já ouviu falar dele ou se é fã de seus filmes. Provavelmente você vai gostar de uma das histórias que esse alemão de 73 anos viveu ao produzir 68 filmes nos quatro cantos do mundo.
Já que a biografia do Herzog é maior do que a Odisseia, separei algumas amizades do diretor como ponto de partida para contar algumas das minhas histórias favoritas:
1. Fini Straubinger
Em 1969, Herzog ficou fascinado por Fini Straubiger, uma senhora cego-surda que perdeu a visão e audição depois de sofrer um acidente aos 9 anos de idade.
Assim que ele a viu pela primeira vez, ele decidiu que queria fazer um documentário sobre ela. Para conquistar sua confiança e poder se comunicar diretamente, Herzog aprendeu a linguagem de sinais tátil.
Mesmo vivendo em mundos completamente diferentes, já que Fini vivia na silêncio e na escuridão, o diretor entrou na vida de Fini e a trouxe para a dele. Herzog fazia viagens com ela, deixava ela de babá de seus filhos e realizou alguns de seus sonhos. Em seu aniversario, levou ela e duas amigas para andar de avião pela primeira vez, em outro dia, convenceu o dono do zoológico a realizar um passei especial, no qual era permitido tocar e sentir os animais.
Durante um ano ele acompanhou e documentou a vida de Fini, que trabalhava em uma instituições que ajudava pessoas com a mesma deficiência. Todo esse trabalho delicado de construir uma relação de confiança resultou no filme “Terra do Silêncio e da Escuridão”, considerado até hoje um dos melhores objetos de estudo sobre como cego-surdos se relacionam com o mundo.
A amizade entre os dois não só continuou depois do filme, como se estendeu para outros membros da família, como a esposa e a mãe de Herzog, que também aprenderam a linguagem de sinal tátil e ficaram próximas de Fini.
“I knew Fini had always wanted to go to the zoo and that the other deaf and blind people she spent time with had also never been there, so I persuaded the director of the local zoo to let them feed the elephants and hold the chimpanzees. We also went to a local arboretum, where they handled various cacti. ” — Werner Herzog: A Guide for the Perplexed.
“I even asked Fini to babysit for my son Rudolph, who was only a year old; nobody had ever entrusted her with such responsibility. My mother became close to Fini and learnt the tactile language so they could communicate with each other. For my mother and me, our contact with Fini went far beyond the film.” — Werner Herzog: A Guide for the Perplexed.


2. Lotte Eisner
Lotte Eisner foi uma crítica de cinema, historiadora e mentora de Herzog. Para ele, Lotte era o link perdido entre a geração anterior de cineastas alemães, que foi interrompida pelo Nazismo, e a geração dele.
Um certo dia, Herzog recebeu um telefonema de um amigo dando a notícia de que Lotte teve um acidente vascular, que provavelmente ela não iria sobreviver e pediu para o pupilo pegar um avião para se despedir dela em Paris.
Herzog ficou tão transtornado que numa forma de demonstrar o seu afeto e relutância ao destino que sua mentora se deparava, decidiu ir a pé de Munique até Paris.
Durante 4 semanas, no começo do inverno de 1974, ele andou centenas de quilômetros procurando entender o que estava sentindo e acreditando que de alguma forma seus esforços poderia ajudar Lotte a viver. Quando ele chegou em Paris, ela já estava melhor e disse que o fato dela estar esperando por ele foi determinante para lhe dar forçar e garantir sua melhora.
Lotte Eisner viveu mais 9 anos e o diário de viagem de Herzog foi publicado com o título de “Caminhando no Gelo”.
“I started looking for flights, before realising it wasn’t the correct way to proceed. I was unable to accept that Lotte might die, and though it was the start of the onslaught of an early winter, I decided to walk from Munich to Paris. My pilgrimage was a million steps in rebellion against her death.” — Werner Herzog: A Guide for the Perplexed.
“I personally would rather do the existentially essential things in life on foot. If you live in England and your girlfriend is in Sicily, and it is clear you want to marry her, then you should walk to Sicily to propose. For these things travel by car or aeroplane is not the right thing.” — Werner Herzog — Of Walking in Ice


3. Errol Morris e Les Blank
Errol e Les Blank são dois documentaristas bem próximos de Herzog e pivôs de uma das maiores lendas por qual o alemão é conhecido: O dia em que ele comeu suas botas.
Isso é algo de se esperar do aventureiro diretor, que já viveu várias situações de sobrevivência extrema quando estava fazendo filmes como “No Coração da Montanha” e “Fata Morgana”. Mas o que fez ele comer suas botas não foi um aperto de fome ao escalar a montanha Cerro Torre ou ao passar semanas no Deserto do Saara, e sim uma provocação feita ao amigo Errol Morris.
Em 1977, Errol Morris ainda não era o consagrado diretor de documentário que viria a ser ao fazer “Uma Breve História do Tempo” e “A Tênue Linha da Morte”. Na verdade, ele ainda não havia lançado nenhum filme. Errol tinha várias ideias, mas vivia reclamando da dificuldade de arranjar dinheiro e apoio para fazer seu primeiro longa. Cansado de ouvir o talentoso amigo só se queixando, Herzog o provocou e disse que o dia que ele parasse de reclamar e fizesse um filme, ele iria comer suas próprias botas.
Se passou um pouco mais de um ano e Errol Morris lançou “Portais do Céu”, que foi um sucesso de critica e entrou no circuito de festivais de cinema. Les Blank, que é amigo dos dois, fez questão de cobrar e filmar Herzog cumprindo sua promessa. O registo virou um curta-documentário intitulado de “Werner Herzog Eats His Shoe”.
“I made it clear that when it comes to filmmaking, money isn’t important, that the intensity of your wishes and faith alone are the deciding factors. ‘Stop complaining about the stupidity of producers. Just start with a roll of raw stock tomorrow,’ I told him. ‘I’ll eat the shoes I’m wearing the day I see your film for the first time.’ ” — Werner Herzog: A Guide for the Perplexed.
“These days you hear about things like shoe-eating out of context and it sounds ridiculous, but to me it made perfect sense. I did it as an encouragement for anyone who doesn’t have the guts to make films. And anyway, a man should eat his shoes every once in a while.” — Werner Herzog: A Guide for the Perplexed.


Para quem quiser saber mais histórias e outras amizades do diretor. Eu recomendo os livros “Werner Herzog — A Guide for the Perplexed: Conversations with Paul Cronin”, “Conquest of the Useless: Reflections from the Making of Fitzcarraldo” e “Of Walking in Ice: Munich — Paris 23 November — 14 December 1974”.
Auf Wiedersehen! ( Tchau em alemão.)

