Eu costumo caminhar todas as manhãs. Todo dia passo pelos mesmos lugares, mas faço rotas diferentes. Porem, há sempre algo novo em cada espaço pisado. Algo novo está em cada nova combinação de pisadas e de esquinas.
Parece um pouco como a minha vida num geral. E não sei é bom ou ruim.
Mas o novo sempre é algo muito interessante. Em uma caminhada você pode descobrir um novo caminho, então o novo aparece dentro do novo. E foi o que aconteceu há quase dois dias.
Primeiro quebrei um pote de vidro com açúcar. Ah… Um caos. Mas necessário. Alguma coisa se quebrou, me protegeu. Ou talvez um primeiro sinal de mudança. Das trocas de peles.
Saí de casa (depois de limpar toda a cagada) e tomei um novo caminho. Subi uma ladeira mais perigosa, com matagais de um lado e motéis do outro. Carros em profusão. Sol como uma estrela de fogo desenhando a minha pele e todas as curvas dos braços.
Novamente tomei outro caminho. Vejo uma senhora em frente de sua casa. Passo direto. Continuo andando. Alguns homens a vista, falando alto sobre qualquer coisa que não me interessei. Um cachorro que me olhou. Fez que deu de ombros. Passei. E tomei outro caminho. Sol escaldante.
Uma jovem menina andando por aí. Dando adeus a seu jeito de menina. Se desfazendo da pele dela. Mas carregando as cicatrizes do passado para a pele do futuro.
Essa sou eu.
E andei. Sem sequer saber de nada. Apenas sentindo aquele momento presente no calor escaldante. Agradecendo a vida. Agradecendo por cada coisa vivida até ali. Acalmando essa alma que é tão agitada. Apaziguando a guerra da mente. R…e…s…p…irando.
Depois me sentei para descansar e depois seguir.
E é aqui o que quebra essa história aparentemente calma e bonitinha.
Quando um carro sobe a rua e para bem próximo de onde estou sentada, curtindo minha paz, as coisas começam a ficar esquisitas.
Há alguém no carro, mas esse alguém permanece lá dentro. E eu continuo sentada, esperando um movimento. Não há. Somente o movimento da rua e dos pedestres distantes. Então tento olhar, mas só consigo ver de forma míope uma mancha em tons de ser humano. Mas sem conseguir identificar… Ah pobre miopia! Ou maldita, talvez. Às vezes gosto de ser míope. Evita o desgaste com quem a gente não quer falar.
Enfim. O carro continuou parado e a pessoa continuou lá dentro. E eu apenas olhei uma segunda vez e logo em seguida me levantei.
Eu não sei quem era. Mas fiquei intrigada, confesso. Continuei meu caminho… Se for você, adeus. Se não for você, adeus também. Já não me importa mais.
O adeus de fim de ciclo. Tanto para mim — como uma menina que abre as alas para a jovem mulher entrar — , quanto para qualquer momento ou situação vivido. Erros, que tiveram os seres humanos como personagens centrais e coadjuvantes.
Todos essenciais no percurso do caminho. Obrigada.
É isto.
O registro de 31 de outubro de 2019, dia das bruxas, é este.
