Interestelar e o problema de Nolan

Christopher Nolan é um grande contador de histórias. Talvez um dos melhores. Interestelar, entretanto, borra ligeiramente a reputação do diretor. Não que seja um filme exatamente ruim, mas… bueno, já aviso que daqui para frente o texto tem mais spoilers que uma competição de carro tunado em Gravataí.


Em ambos os casos a cautela é, pois, recomendável.

Os roteiros trabalhados por Nolan geralmente trazem consigo um grau elevado de elaboração — que o digam A Origem e Amnésia, dois bons filmes vitimados por uma violenta preguiça na tradução do título. E essa elaboração, no estilo NOLANISTA, envolve três elementos fundamentais:

O primeiro é a uma trama que se desenrola em camadas. Há uma camada superficial, onde a ação se desenvolve, e uma camada profunda (ou mais) que fundamenta a ação. Pensem em A Origem: no final todo mundo fica feliz porque o plano do Leonardo DiCaprio deu certo (camada superficial) mesmo que ninguém saiba explicar como foi que isso aconteceu (camada profunda).

(observação: na trilogia do Cavaleiro das Trevas, Nolan passa oitocentos minutos de projeção criando uma ambientação detalhada que evolui no decorrer das obras, abordando a corrupção policial, os problemas do sistema legal, os dilemas sociais, a noção de bem e mal. em vez de prestar atenção nisso, todo mundo ficou só no AI QES BONITO O CORINGA. vocês magoaram o Nolan, só pra avisar.

fim da observação.)

O segundo é aquilo que Nolan faz em O Grande Truque e que, por preguiça de pesquisar a existência de um nome oficial, eu chamo só de O Grande Truque. Basicamente, trata-se de um artifício narrativo onde a audiência é alimentada com uma história, compra ela, acompanha ela até o final e TCHARAM A CARTA ESTAVA NA MINHA MÃO O TEMPO TODO. E a gente fica pensando PUTA QUE PARIU ESTAVA MESMO COMO É QUE EU NÃO PERCEBI, balançando a cabeça e admitindo o nó tático mental aplicado pelo Nolan.

Se vocês pensaram na Talia al Ghul do último Batman, é isso mesmo.

O terceiro elemento é o Michael Caine.

Desculpa, pessoal, vou ter que sair mais cedo. Vocês conseguem terminar sem mim dessa vez?

Mas aí vem Interestelar e esculhamba a porra toda.

O mundo distópico de Interestelar é interessante: uma praga misteriosa destruiu boa parte das colheitas do mundo e o hype é ser agroboy. Mas Cooper, um ex-piloto de AEROPLANOS, está insatisfeito com sua vida e deseja um futuro melhor para seus filhos.

As primeiras cenas são promissoras: o diálogo entre os professores dos pivetes, criticando a sociedade de consumo e seus excessos ao mesmo tempo sugeriam que os moleques abraçassem o destino pastoril; do outro, Matthew TRUE DETECTIVE McConaughey observando que a tecnologia abandonada poderia ter salvo sua esposa de um cisto no cérebro. Como pano de fundo, uma interrogação interessantíssima: buscar a salvação espaço afora ou insistir na tentativa de salvação desse planeta?

Esse poderia ser um mote maneiro para trabalhar o desenlace do filme, mas Interestelar subutiliza o esquema das camadas. Se tem uma coisa que a gente aprende nos filmes do Nolan é a prestar atenção nas coisas sutis, nos detalhes aparentemente desimportantes, na camada profunda. Aquele drone indiano encontrado no início do filme, por exemplo. Ninguém colocaria aquelas cenas do drone, gastando mó grana com externas e ocupando tempo de tela, se ele não tivesse alguma relevância no desenvolvimento da história, não é?

Não. O drone indiano simplesmente desaparece do filme. Aparentemente ele servia para alguma coisa em uma versão anterior do roteiro, segundo esse site aqui, mas depois o Nolan mudou tudo. Deve ter deixado a cena do drone porque, sei lá, recebeu uns trocados de PRODUCT PLACEMENT.

Depois tem o personagem do Matt Damon. Eu não sei o que ele faz no filme. Ele poderia representar a ambivalência da natureza humana, moralidade versus sobrevivência, a loucura trazida pela solidão ou qualquer coisa do tipo. Ele poderia dizer “hey, obrigado por virem me buscar, nada deu certo aqui, vamos para casa”. Em vez disso, o GÊNIO ASTROFÍSICO PIONEIRO DA EXPLORAÇÃO ESPACIAL, capaz de convencer as mentes mais brilhantes da NASA a se lançarem espaço adentro em missões suicidas, simplesmente resolve matar todo mundo e conectar sua nave à estação espacial na base da GAMBIARRA.

Já vi atitudes mais inteligentes em pessoas que colocam colher no microondas.

No final, a missão Lazarus funciona. Espera, não funciona. Cooper acorda em uma estação espacial, e ouve que sua filha encontra-se em outra estação espacial. Ela agora era uma celebridade, havia utilizado o Código Secreto para solucionar a Equação Mágica do Enigma Gravitacional e assim salvar a população do planeta. Uma parte dela, pelo menos. Uma parte bem pequena, na verdade. Provavelmente só os membros do clube secreto da NASA REFOUNDED e seus protegidos, mas é melhor que nada, certo?

Claro que nessa brincadeira, a Terra vai pro saco. Lembram aquela discussão do início entre a preservação do planeta e a busca por outros mundos? Ela vai para uma dimensão escondida junto com a Mãe Gaia, o drone indiano, a moral da poesia repetida duzentas vezes e nunca esclarecida, os 11 pila que eu gastei no ingresso (tenho desconto) e as canetas que eu empresto na firma.

Mas ainda tem O Grande Truque. Ou melhor, não tem. A camada profunda do filme diz respeito à diferença na percepção do tempo entre os astronautas e a galera da Terra — e, embora apresente algumas passagens tocantes e umas referências maneiras a 2001, não chega a ter grandes surpresas. Sério que vocês não imaginavam que o fantasma que parece uma pessoa seria mesmo uma pessoa? Sério mesmo?

No final, Nolan decide que a agenda política é muito chata e decide revolucionar: soluciona os problemas cabeludos em que a galera se embretou através da força do amor.

Juro.

A força do amor.

Caralho, a última vez em que esse tipo de coisa foi considerado uma resolução digna foi em SUPER XUXA CONTRA O BAIXO-ASTRAL. Apelar para isso é sem-vergonhice, Nolan. Até o Michael Caine preferiu que o personagem dele morresse antes do final do filme. Te orienta, cara.

O meu medo é que o não seja o enredo mastigado, os protagonistas vazios, a ciência fantástica recaindo no misticismo tolo e a força do amor. Eu aguento isso. Porque, no fim das contas, Interestelar não é um filme ruim. O meu medo é que, assim como Sinais marca o momento onde M. Night Shyamalan pulou o tubarão, Interestelar seja para Christopher Nolan o prenúncio de uma decadência silenciosa e irreversível. O sintoma de que Nolan está deixando de ser Nolan.

Não faça isso comigo, Nolan. Preciso de você.