A herança que o Brasil esconde

Manoela Caldas
Aug 31, 2018 · 4 min read

O tabu dos rastros escravagistas no trabalho de empregadas domésticas

Em fevereiro deste ano, o Brasil ratificou um tratado que garante mais direitos trabalhistas para estas empregadas domésticas. As medidas incluem uma nova carga horária de 44 horas máximas semanais e férias remuneradas. Em abril, a Emenda Constitucional 72, conhecida como ‘’PEC das Domésticas’’ completa 5 anos, e funciona sem devida fiscalização. E, como toda notícia que envolve o aumento de direitos destas funcionárias, a discussão sobre a problemática deste trabalho voltou a tomar conta das redes sociais.

Nos últimos anos, a internet tem sido palco para discussões de minorias. Hoje, discriminações raciais, sociais, de gênero ou orientação sexual, não passam despercebidas. Ao mesmo tempo, o acesso à informação, principalmente online, ainda é elitizada. Uma pesquisa do IBGE de 2016 mostra que 64,7% dos brasileiros usam a internet. Apesar deste número ser crescente, é preciso lembrar que estar online não é sinônimo de estar envolvido com as tais discussões minoritárias, mesmo que o usuário seja parte de um desses grupos. Informação ainda é um privilégio.

A contradição

O Brasil é o país com o maior número de empregadas domésticas no mundo. Segundo dados da Organização Internacional de Trabalho (OIT), são 7 milhões de trabalhadores no ramo, de maioria feminina, negra, e de baixa escolaridade. Mesmo em uma época marcada por palavras como ‘desconstrução’ e ‘empatia’, falar sobre o trabalho doméstico ainda é um dos maiores tabus da sociedade brasileira. É claro que estes questionamentos existem no Brasil desde autores como Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda, que foram apontaram a ligação da dependência do brasileiro com as empregadas domésticas e a escravidão que ocorreu no país. Mas ainda hoje, existe uma extrema resistência em se pensar no como essa dependência com tais funcionárias é problemática e deve ser repensada.

Foi ao pensar neste silêncio que, em julho de 2016, a professora e rapper Preta-Rara iniciou uma campanha, na qual empregadas domésticas podiam compartilhar abusos sofridos na profissão pela hashtag ‘’#euempregadadoméstica’’. Na época, os relatos chocaram as redes sociais como se os usuários não soubessem que tais situações de opressão aconteciam. É evidente que tais casos nunca foram novidade. Mas o ato de expor estas questões ao mundo de forma tão crua e direta, sem ser a partir de um autor branco, burguês e acadêmico. Nem mesmo documentários que abordam esse tema, como ‘’Babás’’ e ‘’Doméstica’’, lançados em 2010 e 2012, respectivamente, geraram tanto impacto. A campanha foi assunto em alguns dos principais veículos do país, como BBC, Estadão e Catraca Livre. Este foi o primeiro grande momento de grito destas mulheres no mundo digital.

Patricia Rodrigues, moradora de Duque de Caxias, de 42 anos, é filha de empregada doméstica e também segue a profissão. Com mais de dois mil seguidores no Instagram, possui ‘’empregada alegre’’ como nome no perfil. Ela afirma que o usuário não foi escolhido para divulgar trabalhos, e sim porque a define bem. ‘’Gosto muito do que eu faço. Hoje, sou respeitada, mas sei que muitas parceiras de profissão ainda têm essa dificuldade. Os patrões pedem coisas absurdas, e o grande problema é que elas sabem que se não fizerem, eles vão arranjar outra que faça. Se elas morrerem limpando o vidro da varanda, outras entram no lugar no dia seguinte. É o desespero. Mas não pode dar mole, tem que se impor. Minha mãe me que me ensinou’’, disse Patricia.

No Instagram, Patricia compartilha a vida pessoal como qualquer outra pessoa. Posta fotos com amigos, família, selfies e memes. Mas ela também é uma seguidora ativa do projeto de Preta-Rara e faz questão de sempre compartilhar os abusos que sofreu de antigos patrões. ‘’É tanta coisa absurda, que eu poderia ficar o dia todo contando os casos. O mais recente foi um cara que me disse que eu não tinha direito a comer na casa dele, porque pobre tinha que comer até pedra. Fui embora na hora. Nunca fui de dar mole pra patrão. Respondo no ato e meto o pé’’, contou a doméstica.

Discussão com barreiras

Estes espaços nos quais empregadas domésticas podem falar abertamente sobre abusos trabalhistas que sofreram ainda são recentes. Por isso, é fácil identificar na seção de comentários das publicações, que tais comunidades recebem apoio, majoritariamente, apena dessas trabalhadoras e de outras mulheres periféricas em apoio à discussão. As discussões ainda são muito polarizadas entre domésticas que querem direitos básicos e patroas que não enxergam o porquê de tanto alarde.

Em todo movimento minoritário há resistência do outro não enxergar a realidade do oprimido. Quando o assunto é trabalho doméstico, a dificuldade é ainda maior. A problemática está em uma herança escravocrata tão imersa na sociedade brasileira, que nem mesmo aqueles que são informados e desconstruídos repensam esta forma de relação de poder. Os contratantes não têm um perfil restrito. São brancos e negros, ricos e classe-média, de esquerda e de direita. A luta das domésticas é contra todos.

Para Luciene Medeiros, professora do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio, é impossível desassociar a presença de uma empregada doméstica em casa com a forma que a escravidão foi conduzida no Brasil. ‘’O papel da escrava que ficava dentro da casa grande, entre vários, era amamentar os filhos da sinhá e proporcionar prazer para o senhor. Não eram as escravas que trabalhavam no campo que incomodavam. Foi essa relação em casa que alterou a ordem social brasileira para sempre’’, explica Luciene.

Hoje, ainda não é possível saber quando, e se, o trabalho das empregadas domésticas, da maneira que existe nos dias de hoje, vai acabar. É fato que o cenário, tanto da representação dessas trabalhadoras nos meios de comunicação, quanto dos direitos trabalhistas, está a caminho de melhoras. E a tendência da nova geração, os millennials, é ter uma vida com menos luxos, entre eles, os funcionários domésticos. Muitos imóveis construídos recentemente não têm o minúsculo, absurdo e tão tradicional quarto de empregada. Enquanto isso, é preciso apoiar plataformas que dão voz para essas mulheres e sair do comodismo de privilégios para apagar as marcas escravagistas do país.

Manoela Caldas

Written by

Jornalista pela PUC-Rio de 22 anos. Portfólio de textos e matérias. https://www.linkedin.com/in/manoelacaldas/