Jornalistas sem voz

Manoela Caldas
Aug 31, 2018 · 2 min read

Em tempos de engajamento e polarização política, a crise evidente não é apenas econômica. A dificuldade de adaptar o jornalismo às novas gerações é uma notícia antiga. Em meio a tantas modernizações em formato, estratégia e linguagem, um conceito básico parece cada vez mais antigo — a imparcialidade. É inegável que a busca por neutralidade em notícias é necessária para informar o leitor da forma mais clara possível. Ao mesmo tempo, ao se deparar com uma tendência mundial de cidadãos cada vez mais politizados e cheios de opinião, acreditar que o jornalista deve se abster de reações parece incoerente.

Nos atuais manuais de comportamento do jornal The New York Times, a regra é clara: o jornalista deve deter-se de expressar opiniões políticas nas redes sociais. Como funcionários que representam aquela marca por onde vão, é compreensível que haja uma preocupação por parte da empresa em relação à propagandas partidárias feitas pelos empregados. A grande questão é que a norma estabelecida por estes veículos não se refere apenas a gritos aos quatro ventos em apoio a certo candidato, e sim a qualquer manifestação de teor político.

A quarta vereadora mais votada do Rio de Janeiro é assassinada. Escândalos de corrupção são expostos a cada dia. Deputado federal defende a ditadura militar. Mas, segundo os manuais de comportamento, os jornalistas devem postar nas redes sociais apenas fotos do domingo em família, frases motivacionais e aquela dica imperdível do melhor pão na chapa da cidade. A função social do jornalismo, responsável pela busca da imparcialidade, é a mesma que tira direitos básicos de cidadania de quem o produz.

Os dias de publicações estritamente imparciais estão contados. Esta exigência por voz, principalmente pelos millennials, resulta na crescente ascensão de ''influenciadores digitais’’ — entre aspas, por dar a entender que apenas alguns usuários influenciam, quando, na verdade, este poder é de todos — que têm como principais pautas as militâncias contra o racismo, machismo, LGBTfobia, gordofobia, classismo e diversos outros gritos minoritários. Hoje, não basta o criador de conteúdo digital ser engraçado, bonito e descolado se ele não se pronunciar quando grandes eventos políticos e sociais acontecem, principalmente de injustiça contra minorias.

Ser engajado se tornou uma característica positiva primordial, e o silêncio do outro diante de certas causas e acontecimentos causa desinteresse em quem o acompanha. Não se trata de comparar jornalistas com blogueiros, e sim de observar a contradição dos caminhos inversos traçados por estes personagens. No final, ambos se deparam com a mesma vontade do público: a voz. É preciso que as grandes empresas de jornalismo tradicional entendam que existe uma enorme diferença entre partidarismo e cidadania, defesa dos direitos humanos e olhar crítico. Ao mesmo tempo que o mercado exige, corretamente, que jornalistas sejam sempre informados, peca ao exigir que estes se calem.

Manoela Caldas

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